Páginas Amarelas

Esta entrevista foi publicada na revista Veja de abril de 2008. Trata da América Latina e das relações do Governo Lula com os países vizinhos:

O bufão da américa

Historiador diz que Hugo Chávez, presidente da
Venezuela, é perigoso por ser ambicioso e imprevisível


Duda Teixeira


O historiador Marco Antonio Villa já escreveu 21 livros, com temas que variam da Idade Média à Revolução Mexicana. Ao investir contra mitos da história nacional em suas obras e artigos, esse professor da Universidade Federal de São Carlos colecionou polêmicas e fez dezenas de inimigos. Sete anos atrás, tornou-se persona non gratano estado de Minas Gerais ao sustentar que Tiradentes foi um herói construído pelos republicanos. Mais tarde, causou comoção ao escrever que o presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964, preparava o próprio golpe de estado para obter a reeleição. "Os historiadores costumam ter receio de polêmicas, mas é com elas que se transforma a visão de mundo de uma sociedade", diz Villa, que tem 52 anos. Estudioso da diplomacia brasileira, ele vê com preocupação o sumiço da linha de diplomacia cunhada pelo barão do Rio Branco. "O barão profissionalizou o Itamaraty, que passou a atuar em busca dos interesses do país, e não de um governo ou partido." Em sua casa na Zona Norte de São Paulo, o historiador deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Como o senhor avalia a atual diplomacia brasileira?
Villa – Nossa diplomacia se esquiva de defender os interesses nacionais na América Latina. Teima sempre em chegar a um acordo e, como não consegue, acaba cedendo aos vizinhos. Se Lula tivesse sido presidente na República Velha, o Acre seria hoje dos bolivianos e Santa Catarina, dos argentinos. Por aqui se pensa que o Brasil não pode ter interesses nacionais ou econômicos na América do Sul, uma vez que estamos em busca de uma integração regional. É um equívoco. Os interesses do Brasil não são os mesmos da Argentina. Os objetivos do Paraguai não são os do Brasil. A linguagem amena, educada, usada pelos nossos diplomatas apenas tem fortalecido os caudilhos da região, como o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales, que se acham com autoridade para falar ainda mais grosso e aumentar as exigências.

Veja – A diplomacia brasileira não era assim no passado?
Villa – Não. No fim do século XIX, a Argentina reivindicou o oeste do Paraná e de Santa Catarina. Não fazia o menor sentido. O presidente Prudente de Moraes, com a ajuda do barão do Rio Branco, resolveu a questão e evitou a doação da área. Não perdemos um hectare de terra. O barão sabia quais eram os interesses nacionais e os defendia. Além disso, profissionalizou o Itamaraty, que passou a coordenar uma política em nome do país, e não de um governo ou partido. Hoje, precisamos urgentemente que o barão do Rio Branco se incorpore no ministro das Relações Exteriores.

Veja – O Brasil cede sempre?
Villa – Só não o fazemos quando é impossível. Em negociações recentes com a argentina Cristina Kirchner e com Evo Morales, a Petrobras recusou-se a fornecer gás para a Argentina, que vive sob ameaça de um apagão. Se cedesse, o Brasil teria um grave desabastecimento. Nos outros casos, somos sempre fregueses. O Brasil já sofreu no passado uma invasão de produtos argentinos e ninguém reclamou. Quando a situação se inverteu e a balança comercial tornou-se superavitária para o Brasil, os argentinos chiaram e conseguiram o que queriam. Com a Bolívia, aceitamos uma indenização simbólica pelas refinarias nacionalizadas, a um valor muito aquém do que foi investido pela Petrobras. Com Hugo Chávez, falamos sempre "não" na primeira hora, depois dizemos "sim". Éramos contra o Banco do Sul. Hoje somos a favor. Fazemos o oposto do que recomendava Vladimir Lenin, para quem era preciso dar um passo atrás e depois dois para a frente. A diplomacia nacional dá um para a frente e dois para trás.

Veja – Deportar turistas espanhóis é uma resposta inteligente à repatriação de brasileiros que tentavam ir para a Espanha?
Villa – Foi um exagero. A política externa não é para ficar a cargo de um funcionário da Polícia Federal. As cenas dos espanhóis sendo deportados no aeroporto de Fortaleza são absurdas. Uma coisa é um turista que vai para Jericoacoara, outra é um brasileiro que, supostamente ou não, deseja trabalhar na Espanha. Quando faz diplomacia com a Europa, os Estados Unidos ou a Ásia, o Brasil tem sido muito agressivo. É como se o esforço para se afirmar como país, uma vez que não se realiza na América Latina, fosse todo desviado para os fóruns em outros continentes. Ser duro com um turista espanhol é fácil. Quero ver ser duro com Hugo Chávez.

Veja – Chávez é o grande líder da América Latina?
Villa – Quando se olha o que ocorre com os mais de vinte países da região, não há dúvida disso. Com a alta do preço do petróleo, Chávez construiu uma sólida rede de alianças. Foi uma sucessão de vitórias. Tem o apoio de Cuba, Nicarágua, Equador, Bolívia, Argentina. Quem está do lado do Brasil? Ninguém. Chávez é um ator que faz um monólogo. Eventualmente alguém da platéia sobe no palco e participa. O show é dele. Ele determina o que vai ser discutido e como. Os outros só correm atrás. Os países que estão se aproximando do Brasil, como Paraguai e Peru, fazem isso apenas porque não tiveram ainda um estabelecimento de relações com a Venezuela. A história talvez comece a mudar agora. Não por obra de Lula, evidentemente, e sim de Álvaro Uribe, o presidente colombiano. Graças a ele, Chávez teve sua primeira derrota em política externa. A reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), que colocou panos quentes na discussão que se seguiu à morte do terrorista Raúl Reyes, pode sinalizar um futuro diferente.

Veja – Por que o senhor considera que Chávez perdeu?
Villa – Chávez é um caudilho e, como tal, precisa de um palanque para discursar. Quando reagiu com firmeza à morte de Raúl Reyes no Equador, ganhou um palco considerável. Só que durou pouquíssimo tempo. A solução rápida e eficaz do problema pela OEA, que estava sumida do mapa, tirou essa oportunidade dele. Chávez resignou-se porque a maioria dos países apoiou a resolução final, que condenava a invasão territorial no Equador e ao mesmo tempo acusava a presença das Farc naquele país. Uribe, ao pautar as negociações que esfriaram o conflito, mostrou que é possível dar um basta a Chávez. Sua atitude terá um impacto pedagógico até mesmo dentro da Venezuela, onde o povo tem aceitado as precárias condições internas do país ao ver que, externamente, seu presidente só obtém vitórias. Chávez teve sua primeira grande derrota no referendo constitucional. Agora, teve a segunda derrota, dessa vez em política externa.

Veja – Por que o discurso é tão importante para um caudilho?
Villa – Um caudilho não vive sem a oratória. O programa dominical Aló Presidente é o que vitamina Chávez. Fidel Castro adora discursar por horas. O mexicano Antonio López de Santa Anna foi ditador várias vezes, afundou seu país e, ferido e pensando que ia morrer, ditou suas últimas palavras. Foram quinze páginas. No fim, sobreviveu com uma perna amputada, que sepultou com honras militares. A oratória é uma tradição latino-americana, que ocorre paralelamente à dissociação entre discurso e prática. Para esses homens e para as suas platéias, é como se as palavras, sozinhas, tivessem um poder de mudar a realidade. Pura bobagem. Não existe tal mágica. Lula também aposta nesse artifício. Acha que ao divulgar o programa do PAC pode transformar o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em um bairro residencial em seis meses. Para os sucessores, a herança desse tipo de comportamento é terrível.

Veja – Por que os latino-americanos possuem o vício da oratória?
Villa – Em parte, há na América Latina uma forte tradição do bacharelismo. Muitos dos presidentes passaram por faculdades de direito. No Brasil, Getúlio Vargas e Jânio Quadros são exemplos. Epitácio Pessoa era chamado de "A Patativa do Norte", em referência a uma ave cantora. Fidel Castro foi advogado. O argentino Juan Domingo Perón não era, mas a maioria dos seus auxiliares, sim. Para um advogado, o que importa não é a legitimidade da causa, mas o nível de retórica do advogado para defender seu acusado. Somos muito marcados por isso.

Veja – Qual é o maior perigo de Chávez para o resto da América Latina?
Villa – Ele está armando seu Exército e sua população. Compra fuzis, caças e faz acordos com o Irã. Ninguém parece levar isso a sério. A diplomacia brasileira sabe disso e vai contornando a situação. Uma hora Chávez vai invadir a Guiana. Ele reivindica quase dois terços do território desse país. Para Chávez, a Guiana é uma aventura fácil. E quem vai defendê-la? O que a Guiana conta na América do Sul? Nada.

Veja – Chávez reagiu ao ataque colombiano às Farc no Equador com um discurso em defesa da soberania nacional. Ele invadiria a Guiana?
Villa – Chávez é um bufão. Ele construiu um personagem. É um militar de boina vermelha que se emociona, chora e canta em público. Em um momento é simpático. No minuto seguinte, aparece totalmente irado. O bufão é isso. Nunca se podem prever suas atitudes. Pode abraçar um crítico ou mandá-lo para a prisão. Suas atitudes não se regem pelo mundo racional. O bufão trabalha em outro universo.

Veja – Por que Chávez defende as Farc?
Villa – Seu objetivo é enfraquecer Álvaro Uribe. Chávez vê de forma simplista a conjuntura latino-americana. O mundo para ele se divide de uma maneira muito primária: os que estão com ele e os que estão com os Estados Unidos. Considera que o presidente da Colômbia é um agente imperialista na América do Sul. O combate às Farc tem sido uma das mais fortes bandeiras de Uribe.

Veja – É legítimo usar grupos armados ou políticos de outros países para causar instabilidade?
Villa – Há uma incompatibilidade em defender a soberania e apoiar materialmente um movimento terrorista em um país vizinho. No Brasil, tivemos uma história parecida. No governo de João Goulart, as Ligas Camponesas tinham meia dúzia de campos guerrilheiros e contavam com o apoio financeiro cubano. Quando se descobriram os campos, foi um escândalo. Vivíamos um regime democrático e o governo brasileiro manifestava-se contrário à expulsão de Cuba da OEA, enquanto Cuba violava a soberania brasileira apoiando um movimento guerrilheiro que rompia com a legalidade constitucional. A defesa da soberania só valia para os cubanos. Eu imaginava que essa prática de violação da soberania fosse página virada da história latino-americana. Ledo engano.

Veja – Chávez foi o grande pacificador do conflito entre Colômbia e Equador, como disse Lula?
Villa – Não há nenhum fato que comprove isso. Os documentos que estavam no computador do guerrilheiro Raúl Reyes ainda mostram que Chávez apoiava financeiramente as Farc e também recebia ajuda dos narcoterroristas. Isso não tem nada a ver com paz. Lula não tinha por que falar isso. Diz essas asneiras porque está em um momento especial. A economia vai muito bem, o que levou Lula a entender que ganhou um salvo-conduto para reescrever a história do Brasil. Discursou homenageando Severino Cavalcanti, que renunciou quando se comprovou que ele recebia um mensalinho de 10 000 reais para deixar um restaurante funcionando na Câmara dos Deputados. Dois dias depois, defendeu sua amizade com Renan Calheiros, que teve suas contas pessoais pagas por um lobista. Quando falou de Chávez, Lula disse que ele era um ex-guerrilheiro. Lula sabe que essas coisas não são verdade. Não é ingênuo e é bem assessorado. Mas fala como se fosse um iluminado. É um líder messiânico em plena campanha eleitoral. Os professores de história devem estar arrepiados.

Veja – Qual é a importância do Foro de São Paulo na condução da política externa brasileira?
Villa – O Foro de São Paulo é um clube da terceira idade. Basta ver as fotos. São senhores em idade provecta, como se dizia antigamente. São provectos também no sentido ideológico. Suas idéias pertencem ao passado. Não creio que tenham uma estratégia revolucionária para a América Latina tal como foi a Internacional Comunista. Durante o período da União Soviética, os partidos comunistas espalhados pelo mundo eram braços da política externa soviética. O Foro de São Paulo não tem esse poder. Sua maior influência se dá pela pessoa de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, que tem grande participação no Foro.

Veja – Qual é a relevância de Marco Aurélio Garcia nas relações externas?
Villa – Desde o início da República, não há registro de um assessor com tanto poder como ele. Garcia aparece nas fotos quase sempre atrás de Lula. Dá pronunciamentos em pé de igualdade com o ministro das Relações Exteriores ou o secretário-geral do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia é considerado um grande acadêmico, um gênio, uma referência para qualquer estudo sobre relações internacionais na América Latina. Curioso é que não se conhece nenhuma nota de rodapé que ele tenha escrito sobre o tema. Fui procurar seu currículo na plataforma Lattes, do CNPq. Não há nada sobre ele. Marco Aurélio Garcia é o Pacheco das relações internacionais.

Veja – Quem é o Pacheco?
Villa – É um personagem de Eça de Queiroz que aparece no livro A Correspondência de Fradique Mendes. Pacheco era um sujeito tido como brilhante. No primeiro ano de Coimbra, as pessoas achavam estranho um estudante andar pela universidade carregando grossos volumes. No segundo ano, ele começou a ficar mais calvo e se sentava na primeira carteira. Começaram a achar que ele era muito inteligente, porque fazia uma cara muito pensativa durante as aulas e, vez por outra, folheava os tais volumes. No quarto ano, Portugal todo já sabia que havia um grande talento em Coimbra. Era o Pacheco. Virou deputado, ministro e primeiro-ministro. Quando morreu, a pátria toda chorou. Os jornalistas foram estudar sua biografia e viram que ele não tinha feito nada. Era uma fraude.

Veja – Que conseqüências a política externa do Brasil pode ter no futuro?
Villa – Pela primeira vez na história do país existe a possibilidade de a política externa tornar-se tema de eleição. Seria algo realmente inédito que, para acontecer, só depende de como Chávez vai agir nos próximos anos. As concessões dadas à Bolívia, os diversos acordos com Chávez e a recusa em classificar as Farc como um grupo terrorista estão provocando muita crítica dentro do Brasil e podem juntar-se em um único e potente tema central na próxima campanha presidencial.


Que fazer? (2)

Continuando a "ladainha":


1. Vale a pena ler a entrevista no "Veja.com" do Aldo Rebelo, especialmente quando fala sobre como a oposição sabotou (pelo adesismo à candidatura oficial) a possibilidade de uma chapa contrária a de Marco Maia;

2. A solicitação de Álvaro Dias (aposentadoria como ex-governador) é um desserviço à oposição neste início ano;

3. A oposição não entendeu que o novo governo já nasceu velho, carcomido. Hoje o assunto mais quente são as contas no exterior da famíglia Sarney. Nunca é demais lembrar que o chefe da famiglia é íntimo aliado do ex-presidente Lula, que o PT do Maranhão foi obrigado a apoiar na última eleição Roseana para o governo do estado e que o governo está sustentando mais uma vez a candidatura de Sarney para a presidência do Senado (além dele ter indicado dois ministros: Lobão e o Novais - este é aquele que realiza trabalho parlamentar no motel mais caro de São Luís).

Que fazer?

Até o momento, a oposição está sem nenhuma alternativa. Não conseguiu sequer estabelecer uma agenda mínima. O noticiário é dominado pela base governamental, que, de tão ampla, vai criar (como já está criando) muitos problemas. Falar em CPI, quando for o caso, é perda de tempo. O governo terá ampla maioria e os cargos de presidente e relator. Resta o trabalho de formiguinha, de embate tipo guerrilha, de participação ativa nos trabalhos parlamentares e ocupando espaço na imprensa. Pelo andar da carruagem, nem isso, (que é tão pouco) será realizado pela oposição. Resta aos eleitores cobrarem os parlamentares.


A política é dinâmica e a história é sempre surpreendente. Isto é o óbvio. Porém, este óbvio já se repetiu diversas vezes na história recente do Brasil.

Desinteresse e apatia.

A tragédia na região serrana do Rio é cada dia pior. Muitos distritos estão isolados. Os mortos já passaram de 700. relatos descrevem que muitos corpos foram retirados pelos moradores que escavavam a terra com as mãos. Mortos foram enterrados nos quintas das casas.


O poder público silenciou. A oposição está muda. O país finge que nada está acontecendo. É bem o retrato do Brasil contemporâneo.

Biblioteca Mário de Andrade (2)



A polêmica sobre a BMA continuou. Este artigo foi publicado na Folha a 9 de junho de 2004.


O futuro de uma biblioteca

MARCO ANTONIO VILLA

É típico do stalinismo responder uma interpelação com várias acusações. O diretor da Biblioteca Mário de Andrade (BMA) lembra o promotor Vishinski, dos célebres Processos de Moscou: acusa sem provas e deslegitima qualquer opinião ("Verdades a respeito da Mário de Andrade", pág. A3, 4/6). Não sou seu opositor, mas simplesmente um usuário da Mário de Andrade. A violência das respostas dos senhores da BMA é que causa estranheza. Ainda bem que vivemos numa democracia, caso contrário...
Creio que a desinformação do comissário, digo, do diretor da BMA sobre o cotidiano da biblioteca se deve à tripla função que exerce: na editora da Unesp, como professor no campus de Araraquara e na direção da biblioteca. Isso explica o fato de nunca ter me visto na Mário, assim como eu nunca o vi. Recordo que, nos meus livros, sempre fiz questão de agradecer o apoio dos funcionários da biblioteca.
Mas o que interessa não é esse desencontro. Estou denunciando a destruição de uma biblioteca, a maior da cidade, que desde 1993 está abandonada pelo poder público. Isso não tem nenhuma relação com o calendário eleitoral, como acusou o ex-secretário de Cultura Marco Aurélio Garcia e repetiu de forma obediente o diretor da BMA. Eleitoral é responder uma crítica à biblioteca citando os CEUs. O que têm a ver os CEUs com a Mário de Andrade?


É inexplicável financiar o Colégio de São Paulo. É essa a atividade-fim da Mário de Andrade?


Os números apresentados pelo diretor são fictícios. Triplicou o número de consulentes? Basta qualquer cidadão entrar na biblioteca e ver que ela está mais vazia do que o estádio do Canindé em jogos da Lusa. E os setores fechados? E o quase desaparecimento dos bibliotecários? Centro de referência? Como, se o acervo está totalmente desatualizado? Lembra Pedro Nava, em "O Galo das Trevas", e isso se aplica à BMA, "que -neste país de analfabetos formados e analfabetos mesmo-, em vez de ter um alto-falante na porta (da biblioteca) gritando -entrem para ler!-, possui pessoal impedindo, o mais possível, acesso ao seu acervo".
Se um consulente procurar no terminal os livros que constam do acervo, nada encontrará, pois o catálogo não foi informatizado. Se for usar o xerox, é comum encontrar o setor fechado, pois falta papel, toner ou a máquina pode estar quebrada. Se precisar do setor de microfilmes, encontrará a mesma situação de abandono. Caso necessite de um periódico, é rotineiro encontrar o material semidestruído, sem nenhuma conservação. Isso quando o consulente recebe o material, pois o setor não tem funcionários suficientes para sequer transportar o material até a sala de consulta. Caso resolva buscar um livro publicado em 1995, por exemplo, também não encontrará. É compreensível que o diretor da Mário de Andrade ou o ex-secretário da Cultura não tenham passado por isso: afinal, não são pesquisadores.
O setor de livros raros foi esquecido. Hoje, pesquisadores brasileiros ou estrangeiros não têm mais acesso ao rico acervo. Ele está fechado, ou, como prefere a direção, o acesso foi restringido. Pode ser que, depois destas denúncias, volte a abrir -o que seria uma excelente notícia. Mas passou despercebido que os ladrões que roubaram o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, também assaltaram a Mário de Andrade. Quantos livros roubaram? Quais? A administração foi omissa? Foi aberto algum inquérito? Em caso positivo, qual foi a conclusão? Nada sabemos.
Em meio à enorme carência de recursos, é inexplicável financiar o Colégio de São Paulo. É essa a atividade-fim da BMA? Evidente que não. Mas acaba servindo para ampliar as bases políticas do diretor: sabemos como a intelectualidade nativa adora uma benesse, por menor que seja. Não causará estranheza que um desses beneficiados apóie entusiasticamente o diretor, louvando a sua administração e até o seu tino acadêmico. Mas isso não mudará em nada a situação de penúria da biblioteca.
Em face de tudo isso, cabe a apresentação de propostas. A primeira é a contratação de funcionários. A segunda é a ampliação das instalações. A terceira é a atualização do acervo (por que não propor à Câmara Municipal um projeto de lei prevendo o depósito legal na BMA dos livros editados em São Paulo? Isso certamente não resolve o problema, mas dá início ao processo de atualização bibliográfica). A quarta é a preservação urgente do acervo. A quinta é a divulgação das fontes lá existentes. A sexta é a criação de um setor de doações -quantas famílias não tem um enorme acervo que poderiam doar para a Mário? Bastava selecionar as obras mais significativas, enquanto outras seriam encaminhadas às bibliotecas distritais.
Parte dessas propostas envolve pequeno investimento, mas necessita de iniciativa, de uma política cultural que não temos. Porém a direção insiste nas suas promessas: "No ano que vem...". Como no ano que vem? O término da reforma, que nem sequer começou, não era em 2003? O lamentável de todo esse episódio é que os donos da Mário, em vez de ficarem satisfeitos com a discussão sobre os destinos da biblioteca através da Folha -o que não é pouco-, responderam atacando e injuriando. Perderam uma excelente oportunidade para democratizar o debate sobre uma biblioteca tão importante no passado recente da nossa cidade.


Velhos problemas

Dezoito dias de governo e o panorama é o mesmo que o do ano passado. Ou até pior. Dilma faz o tipo de presidente oculta. Quer mostrar que está trabalhando. Não parece. O descaso das autoridades com a tragédia no Rio é uma mostra. Ela imaginou que bastava uma visita meteórica à área afetada (que não é pequena) que tudo iria ser resolvido. Errado. os ministros da Integração Nacional e das Cidades deveriam estar lá acompanhando in loco e já pensando no que é mais urgente fazer para evitar (ou diminuir) os efeitos de novas tragédias.


O PMDB está sendo acusado de corrupção na Funasa. Novidade?

A oposição está sumida. Aécio, claro, só podia ser ele, disse que a oposição tem de ser patriótica! Lembrou o general Geisel que dizia que a oposição deveria ser construtiva, responsável.

Os 44 milhões de oposicionistas são mera ficção para o maior partido da oposição. Não existem. Ou estão contentes com o governo e votaram por engano no Serra.

Biblioteca Mário de Andrade


A BMA vai reabrir dia 25 de janeiro. É a maior biblioteca de São Paulo. Em 2004 iniciei o processo de discussão pública da importância da BMA para a cultura brasileira. Era necessário uma reforma urgente. Escrevi este artigo na Folha (2 de junho de 2004) e que acabou originando uma enorme polêmica. Respondi, dias depois, com outro artigo às críticas do então diretor da BMA e de um abaixo-assinado de pseudos-intelectuais, que não frequentavam a BMA e por puro oportunismo tentaram (mas não conseguiram) desqualificar as críticas. Segue o artigo:

A destruição de uma biblioteca.

No século 7, a célebre biblioteca de Alexandria sucumbiu definitivamente após mais um incêndio. Em São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade não precisou de nenhum conquistador para ser destruída: bastaram os últimos dois prefeitos e a gestão de Marta Suplicy.

Hoje, a Mário de Andrade vive o momento mais grave de sua história. Abandonada pelo poder público municipal, está à mingua, sem funcionários para os serviços essenciais, raros bibliotecários -pois grande parte se aposentou nos últimos anos- e com o prédio em situação precária. A única intervenção do governo municipal foi a realização de uma pequena obra na praça Dom José Gaspar, meramente decorativa -tanto que o monumento em homenagem ao poeta simbolista Cruz e Souza, destruído desde 2002, continua jogado no jardim que cerca a praça.

Porém o prédio que reúne o acervo de mais de 300 mil livros -grande parte doada, apesar de hoje não existir nenhum setor para receber bibliotecas- continuou intocado.

A crise da biblioteca vem desde a gestão Paulo Maluf. Depois de uma grande reforma no final do governo Luiza Erundina, o prédio foi reinaugurado às pressas, no final de 1992, pouco antes da eleição municipal. Para Maluf, nunca uma biblioteca foi prioridade, muito menos a Mário de Andrade. Durante sua administração foram transferidos para lá muitos funcionários da Secretaria da Saúde que não aderiram ao PAS. De uma hora para outra, atendentes, auxiliares de enfermaria, funcionários burocráticos dos hospitais foram transferidos para um ambiente distinto: em vez dos doentes, tinham de cuidar dos livros.

Os serviços da biblioteca continuaram funcionando precariamente e não foi comprado sequer um livro para o acervo. Nos quatro anos seguintes, os problemas foram se agravando: o acervo continuava desatualizado e necessitando de conservação, os equipamentos estavam deteriorados, as vagas dos aposentados não foram preenchidas, o prédio, devido à pressa na entrega da reforma, apresentava graves problemas hidráulicos e elétricos.

Esperava-se que, na administração do PT, tudo fosse mudar. Doce ilusão. Um dos primeiros atos do então secretário da Cultura, Marco Aurélio Garcia, por incrível que pareça, foi a proposta de fechar a biblioteca, o que não ocorreu graças à mobilização dos funcionários, que realizaram um "abraço ao prédio". Acreditava-se que tudo não tivesse passado de um engano do secretário, que desconhecia a riqueza do acervo da biblioteca, por não ser um consulente daquele espaço. Mas, se não havia recursos para manter a biblioteca, havia para fundar o Colégio de São Paulo, à semelhança do Colégio de França, criado por Francisco 1º, tendo como local a própria biblioteca.

Puro marketing para imortalizar a prefeita como uma protetora das artes, uma Catarina 2ª tupiniquim, infelizmente sem um Diderot.

Contudo a atividade-fim da biblioteca, o atendimento dos consulentes, foi, apesar dos esforços dos funcionários, piorando a cada dia, pela absoluta falta de recursos. Em 2004, a situação chegou a um ponto intolerável. O setor de cabines, reservado aos pesquisadores, que funcionava sofregamente, foi simplesmente fechado. Logo em seguida mais uma péssima notícia: o setor de livros raros, que só abria no período da tarde, também foi fechado. Para quem não conhece, o setor de raros tem um importante acervo e, dependendo da área, é indispensável para inúmeros pesquisadores nacionais e estrangeiros.

Mas a lista de problemas continua: as máquinas leitoras de microfilmes vivem quebradas; quando funcionam não podem tirar cópias, pois falta papel ou falta toner. O acervo até hoje não foi informatizado e nem sequer existem banheiros abertos para o público em quantidade suficiente. Devido à ausência generalizada de funcionários, o horário de todos os setores que ainda funcionam deve ser reduzido, indo na contramão das políticas de bibliotecas em todo o mundo, que cada vez mais ampliam os horários de atendimento: algumas ficam abertas 24 horas. E, pior, nos três anos e meio de gestão do PT não foi comprado nem um mísero livro, o que iguala a triste marca cultural da dupla Maluf-Pitta.

Diante desse quadro, é natural que os pesquisadores tenham abandonando a biblioteca. A solução foi buscar outro local, em São Paulo ou em outro Estado -especialmente a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Todavia é inexplicável o silêncio complacente de todos aqueles que utilizaram os serviços da biblioteca e que agora assistem calados à sua destruição. Uma política emergencial de conservação e ampliação do acervo, de recebimento de doações de livros e revistas, de unificação do acervo -pois parte está em Santo Amaro-, de reposição de funcionários e pleno funcionamento de todos os setores da biblioteca antecede qualquer programa de reforma, por mais importante que seja. E mais: a Mário de Andrade tem de voltar a ser uma biblioteca de referência e de visitação pública.