Estranho republicanismo.

No Brasil um político gosta de ser tratado pelo cargo mais alto que ocupou. São chamados até a morte de senadores, deputados, governadores, prefeitos, etc. Como se fossem títulos e não meros cargos assumidos por um tempo determinado, como em qualquer república. Alguns poderão dizer que é o hábito monárquico e que o cargo acaba, com o tempo, virando um título nobiliárquico. Contudo, isto não tem qualquer relação com o espírito republicano, aquele da propaganda (1870-1889) e que levou ao 15 de novembro.


Um destes "republicanos da época da propaganda" escreveu, em 1899, que a república tinha apenas sido anunciada dez anos antes, mas que não tinha ainda sido proclamada. A frase é boa e atual. Basta retornar ao episódio das férias do ex-presidente Lula em uma instalação do exército. Em qualquer país politicamente sério seria um escândalo. Aqui já é considerado assunto vencido. Quem toca no assunto pode ser considerado um chato, um indelicado. A oposição está silenciosa, como de hábito. O Ministério Público finge que não é com ele. E Lula continua lá comendo e bebendo às custas do erário e com uma tropa de mais de 20 acompanhantes.

E se fosse um ex-presidente de outro partido, como o PT agiria?

Reparação

Lula e a história (2)

Não custa imaginar o escândalo que o PT faria - caso estivesse na oposição - se um presidente, ao final do mandato, levasse para casa 11 caminhões com presentes recebidos no exercício do cargo, Denunciariam até a exaustão o caminhão "climatizado" lotado de bebidas, os mais de 100 ternos que Lula levou para casa (e que foram pagos pelo erário), os vestidos de dona Marisa, etc, etc. Mas a sorte de Lula (e várias vezes escrevi que ele é um homem de sorte) é que a oposição está de férias. Afinal, foi muito ativa nos últimos 8 anos.


Não podem ser esquecidos também os passaportes diplomáticos para o neto (é interesse do país?) e do bispo da Record/Universal.

É importante destacar o silêncio das "autoridades". Será inevitável para Lula ter de responder, quando der a primeira entrevista (e que não vai tardar), sobre estes fatos. E não tem mais o cargo como instrumento de coação, nem a estrutura de "comunicação social" (muito pior que o DIP) montada por Franklin Martins.

Lula na história

Pode já ter começando o longo processo de desconstrução de Lula. É o retrato que vai ficar para a história.


Longe do governo, mesmo que por apenas 6 dias, já começaram a pipocar várias denúncias. Agora não pode mais responder com todo aparato de Presidente da República, o que dá um grau de veracidade muito maior do que se a resposta for como um simples cidadão.

Seus filhos foram acusados (e não é de hoje) de obterem vários favorecimentos. Moram em apartamentos alugados mas não pagam aluguel. Tem passaporte diplomático, outro absurdo.
Lula passa férias em imóvel da União e tem todas as despesas pagas, o que é absolutamente ilegal.

Deixou várias bombas de efeito retardo para Dilma, especialmente na área econômica. Logo ela ou os ministros vão ter de se defender e imputar ao antecessor os problemas.

Ah se no Brasil tivesse uma oposição atuante.....

En Brasil muchos dudan que Rousseff investigue los abusos del pasado militar

Saiu hoje na BBC, esta matéria.

Começa mal.

Dilma começa mal. Teve de dar um pito no general do Gabinete de Segurança Institucional. Mas foi mais para a platéia. O governo não está nem aí para o problema do passado do regime militar. Tem outras prioridades.


Como é sabido, o PMDB está em pé de guerra. Quer cargos. Como escrevi no final do ano, o partido será a pedra no sapato da presidente. Como a oposição continua a mesma - não existe, politicamente falando -, o papel será desempenhado pela fúria principalmente do PMDB (mas não só: a base é formada por uma dúzia de partidos) sempre desejoso de saquear o erário o mais rápido possível.

E a eleição para a presidência da Câmara pode entornar o caldo da aliança PT-PMDB. Foram muitas brigas para apenas 4 dias de governo.

Posse e primeiros problemas.

Tinha deixado um aviso, no início de novembro, logo após o segundo turno, comunicando que a atualização do blog seria meio esparsa. É muito difícil todo dia escrever um texto. Desta forma, optei por republicar textos mais antigos, que saíram principalmente na "Folha" e no "Estadão" ao longo dos dois governos Lula. E quando publico um artigo novo, atualizo o blog.


Bem, tratando da posse. Vale a pena sistematizar alguns pontos:

1. o discurso foi fraco e repetitivo. Dilma confundiu a campanha, quando era simplesmente uma candidata, com o momento que é a presidente do Brasil;

2. a grande figura da posse - como era esperado - foi Lula. Todas as atenções estavam concentradas nele. Foi patético o momento que o ex-presidente desceu a rampa ao som do "Tema da vitória". Como se o Brasil não tivesse tanto hino (Nacional, da Bandeira, etc);

3. a ida de Sarney a São Bernardo acompanhando Lula foi uma demonstração do que já escrevi. Lula deu nova vida às oligarquias que estavam sendo defenestradas dos seus estados, como os Sarneys, lá no Maranhão. Nunca é demais lembrar que Jackson Lago derrotou Roseana em 2006 e dois anos depois foi derrubado do governo por um golpe patrocinado pelo TSE (e com o apoio de Lula;

4. não houve na história do Brasil um presidente que montou uma máquina tão eficaz de propaganda. Deixou "no chinelo" o DIP de Getúlio Vargas (instrumento do ditador durante o Estado Novo, 1937-1945) e que louvava diuturnamente o ditador (o seu dia de nascimento - 19 de abril - era feriado escolar), e a AERP (Assessoria Especial de Relações Públicas) do governo Médici (1969-1974). Franklin Martins distribuiu verbas para mais de 4 mil veículos de comunicação do interior (incluindo blogs). Transformou a verba publicitária do governo em instrumento de coação sobre estes veículos. Se for somado a compra de artistas e intelectuais, via empresas estatais (especialmente a Petrobras), bancos públicos e o MinC, teremos em ação uma enorme máquina publicitária. Mesmo assim, a sua candidata no primeiro turno não passou dos 46% dos votos válidos;

5. Dilma já começou o governo fraca, politicamente falando. Bastar ler a entrevista de Gilberto Carvalho, seu ministro, e publicada ontem. Ele disse que se a situação política ficar difícil, o PT pode chamar o Pelé (Lula), que está no banco de reservas. Duas ponderações: 1. ele está dizendo que Dilma não tem condições de administrar uma situação adversa; 2. disse que Lula continua no governo, o que é um absurdo. Ele não está no banco de reservas, não foi "convocado". O seu mandato já acabou.

6. voltando ao indefectível Sarney. Ao ir a SBC, deu às costas para Dilma. Disse, através deste gesto, que era, para ele, mais importante acompanhar o ex-presidente do que participar das festividades de posse de Dilma;

7. em tempo: Sarney era o presidente do PDS (partido do regime militar que sucedeu a ARENA) quando Figueiredo reprimiu as greves do ABC, chegando, inclusive, a destituir (e deter por 30 dias) Lula, que era o presidente do sindicato de SBC. Lula realmente não gosta de história.