Falando das manifestações
Personalidades apoiam movimento de combate à corrupção no governo federal
Publicada em 11/09/2011 às 09h19m
RIO - A sociedade civil começa a se mobilizar para dar apoio e respaldo à presidente Dilma na "faxina" no governo. Senadores de diversos partidos lançaram a Frente Suprapartidária Contra a Corrupção e a Impunidade e convocaram a população para participar. Uma empresária já organiza no Facebook um ato contra a corrupção no Rio , que começa a se espalhar pelo Brasil e foi notícia até no jornal espanhol "El País" . O GLOBO publica diariamente o depoimento de uma personalidade sobre a importância do movimento de combate à corrupção e da mobilização da sociedade.
Marco Antonio Villa, historiador"Eu fiquei impressionado com as manifestações organizadas no Sete de Setembro. Especialmente em Brasília, onde muitas pessoas foram às ruas. Eu sempre fico irritado quando ouço de alguns, e é pensamento corrente, que a corrupção está no DNA do brasileiro. Outro discurso de que não gosto é o seguinte: se a economia vai bem, então está tudo certo, ninguém se mobiliza. Esses discursos que não tem nada a ver e essas manifestações mostram que as pessoas estão indignadas. A grande dificuldade é encontrar um meio para que sociedade possa demostrar toda essa insatisfação. Nós somos uma sociedade invertebrada, difícil de canalizar algumas insatisfações.
O desafio, agora, é a continuidade. Como manter essas manifestações e pressionar? Aquela tese de que não estão nem aí, é tudo bobagem, lero-lero. Tenta-se até justificar a despreocupação com a carta de (Pero Vaz) Caminha, e associam também a corrupção a uma herança ibérica, mas não é assim. Pode ser que esse movimento inaugure uma nova forma de fazer política. Há um cansaço em relação às formas tradicionais. Os sindicatos e movimentos sociais, por exemplo, são todos beneficiados e atrelados ao governo".
Corrupção
As manifestações de ontem (principalmente em Brasília) foram importantes. Agora, o desafio é saber se o movimento continua e se expande. Indignação popular é que não falta.
Como o governo quer
As denúncias de corrupção diminuíram. Ou melhor, sumiram do noticiário. Colocando água na fervura, o governo espera retomar a iniciativa política. Começou a deslocar o noticiário para a questão do orçamento e de um novo imposto para a saúde. Os escândalos estão sendo esquecidos (e ninguém foi - ou será - punido). O governo faz o seu jogo. O problema, como sempre, é a oposição.
Retrato do Brasil
Sala São Paulo, sábado à noite, 800 convidados. Presentes: altas autoridades da República, tanto da esfera federal, como da estadual e municipal. Comemoração: aniversário de 80 anos de Paulo Salim Maluf. O aniversariante é procurado em mais de cem países pela Interpol. É o retrato do Brasil.
Falando um pouco de cultura brasileira
Entrevista para a revista eletrônica Sibila:
Régis Bonvicino: Houve consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 no que se refere ao Brasil?
Marco Antonio Villa: Para o Brasil teve pouca consequência. Mas, em termos de política externa sul-americana, foi importante. Como os EUA concentraram seus interesses e atenções no Oriente Médio, “sobrou” um espaço vazio na América do Sul. E não há, em política, espaço que fique vazio nem por um segundo. O vazio foi ocupado pelo Brasil (mesmo encontrando resistências da Argentina e, principalmente, da Venezuela). As medidas antiterroristas não tiveram qualquer efeito. Mesmo nos aeroportos, a revista é “teatro”. Ninguém imagina (ainda bem!) que seja possível algum atentado terrorista no Brasil (aqui Bin Laden virou máscara de carnaval). As nossas fronteiras continuaram despoliciadas exatamente como antes do 11 de setembro. O nosso principal adversário não é o terrorismo, mas o tráfico de drogas.
RB: O 11 de setembro estimulou o imaginário da criminalidade comum no Brasil?
MAV: Não creio. A criminalidade local tem um movimento próprio, singular. Tornou-se mais especializada, seguindo o ritmo das mudanças tecnológicas. Mas nada além disso. Aqui não temos crime organizado tout court. Há quadrilhas que buscam apenas operar de forma mais organizada. Não é possível compará-las, no entanto, com as quadrilhas que operam nos EUA. A criminalidade nativa só ganhou importância devido à ineficiência e à corrupção públicas, cada vez maiores.
RB: Há alguma semelhança palpável entre cultura americana e brasileira?
MAV: Não. Temos formação muito distinta. Algum paralelo é possível estabelecer com um ou outro país da Europa ocidental.
RB: Você acha que o Brasil tem uma cultura insular em razão da língua portuguesa e ou em razão de outras causas?
MAV: A língua dificulta. Afinal, o português sobrevive graças à importância cultural e econômica do Brasil. As antigas colônias portuguesas na África, a cada dia, se afastam do português como língua nacional. Em Timor Leste ocorre o mesmo processo. Não deve ser acidental. Mas a pergunta é mais complexa. É chato dizer, mas a cultura brasileira (e latino-americana) é muito inferior à chinesa, japonesa, francesa, americana, inglesa etc.
RB: O Brasil é hoje basicamente um exportador de matérias-primas. Como ficam as teorias antropofágicas de Oswald de Andrade, ao propor a devoração das ideias do colonizador e a reposição de suas influências como um produto original, próprio, brasileiro, em escala internacional? Essa tópica não lhe parece ingênua e datada?
MAV: A música popular deve ser a única área onde temos importância internacional no campo cultural (mesmo assim, uma influência limitada, relativa). Sem querer ser chato, considero o modernismo de 1922 uma invenção da crítica literária paulista. A imagem da antropofagia cultural é inteligente, porém inócua. Todas as culturas desenvolveram (e desenvolvem) esse mecanismo de “antropofagia”.
RB: Você concorda que exportamos apenas futebol, MPB e carnaval, em termos culturais? Por quê?
MAV: É verdade. Para mudar teria de existir uma forte presença do Estado “exportando” nossos produtos culturais (como na tradução dos nossos escritores, por exemplo). E sobretudo uma produção cultural de melhor qualidade. Sinceramente, acho que temos muitos espaços culturais e pouca produção cultural de qualidade. O país não tem compromisso com a cultura.
RB: Como vê o mundo dez anos depois dos atentados?
MAV: É muito mais complexo. Na verdade, a complexidade aumentou com o fim da Guerra Fria. Até aquele momento – e durante quase quatro décadas – o mundo estava dividido em duas partes. Qualquer conflito tinha de se encaixar de um lado ou do outro. E a pronta ação das superpotências emprestavam certo equilíbrio àqueles conflitos. Era a barbárie sob controle. Hoje temos a barbárie incontrolável e fortemente marcada pelo fundamentalismo de todos os naipes. O mundo ficou muito mais tenso e com enorme dificuldade para encontrar soluções localizadas nas áreas em conflito. Mas as mudanças econômicas continuaram. A China foi assumindo um protagonismo, a cada ano, maior (e foi, dos grandes países, o que menos perdeu nesta década – basta ver o custo das guerras travadas pelos EUA e comparar com os gastos militares dos chineses).
Caminhos da oposição
Saiu hoje n'O Estado de S. Paulo:
Analistas veem País órfão de oposição
‘‘Os eleitores oposicionistas estão órfãos, o País está anestesiado. Vivemos uma anomia política, com uma sociedade civil invertebrada. A indignação contra a corrupção é pequena e, quando ocorre, tem prazo de validade curto’’, resume o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). ‘‘Mas quando temos uma oposição que depende do escândalo para aparecer, já temos um problema grave’’, completa outro estudioso dos partidos nacionais, Jairo Nicolau, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), no Rio.
A insatisfação dos eleitores, admitem acadêmicos e políticos, corre hoje por fora dos canais partidários e isso é mais do que explicável: aos poucos, os partidos estão deixando de ser o desaguadouro dessas causas. Se eles funcionassem, podia-se esperar mais valentia, ou pelo menos mais barulho, de um bloco que faturou 44 milhões de votos presidenciais em 2010, comanda nove Estados e controla 1.276 prefeituras no País.
Há uma Frente Suprapartidária Contra a Corrupção, formada no Senado, que vem se destacando pela enorme falta de impacto. ONGs e associações civis divulgam manifestos e reuniões pela internet, mas é pouco.
Uma explicação óbvia, para muitos, é que a economia vai bem. A crise política enfrentada pela presidente Dilma Rousseff conviveu, na semana passada, com dados sobre a queda do desemprego a taxas mínimas nas grandes cidades, aumentos reais para os trabalhadores, uma bem-sucedida e pioneira privatização de aeroporto, recorde de investimentos externos.
Erros do passado
Mas a economia não resolve tudo. Em momentos econômicos diversos, o País se rebelou nas CPIs contra Fernando Collor (1992), contra os Anões do Orçamento (1993) e na crise do mensalão (2005).
Muitos estudiosos preferem entender a fraqueza da oposição como resultado de seguidos erros cometidos ao longo do tempo. Celso Roma, da USP, vê uma combinação de equívocos do PSDB com estratégias inteligentes do PT – a começar pelo abandono do radicalismo de esquerda na Carta aos Brasileiros, em 2002, e pela ocupação das bandeiras tucanas a partir de 2003. ‘‘A oposição não tem discurso convincente perante o eleitorado, por seus próprios erros de conduta’’, diz. ‘‘Depois de perder apelo entre os eleitores, no final da era FHC, o programa do partido foi relegado a segundo plano por seus candidatos e filiados.’’
O sociólogo José Arlindo de Souza, da Universidade Federal da Paraíba, considera o grande entrave a falta de competência dos oposicionistas. ‘‘Os líderes dos dois principais partidos de oposição não têm estofo para incluir nas discussões mudanças substantivas no plano parlamentar e mobilizar a sociedade’’, avalia. ‘‘A oposição age de forma reativa, muito mais em função dos atropelos do governo. Não com um conjunto de propostas que se tornem símbolos na sociedade.’’
Limites
Como José Arlindo, Marco Villa cobra qualidade: é preciso ter bandeiras e isso exige discussão ideológica, mas o primarismo das lideranças impede que esse debate ocorra. ‘‘Qual o programa mínimo, político? E o econômico? Como criar e mobilizar bases partidárias?’’ Nas contas dele, ‘‘essa falta de combatividade vem desde 2003’’. ‘‘Estamos falando de quase nove anos sem oposição consistente.’’
Essa consistência, diz Jairo Nicolau, dependeria de um trabalho sério, que a oposição não fez. ‘‘Ela não criou alternativas de longo prazo, não delimitou seu terreno. Não formou quadros’’, considera. ‘‘O PSDB é um partido desconectado de bases sociais. Isso o obriga a esperar por um escândalo, um grande erro do governo, um súbito candidato talentoso, para se revigorar.’’
Hoje, no entanto, ‘‘os escândalos não são mais monopólios da oposição’’, segundo Nicolau. ‘‘Quem os comanda são a Polícia Federal, a CGU (Controladoria-Geral da União), o Ministério Público’’, afirma. Nem a fraqueza é só dela. ‘‘O debate eleitoral é uma pobreza. Um campeonato de quem promete construir mais hospitais e escolas.’’
Mas não se pode esquecer a História, adverte Nicolau. No governo FHC, o PT passou longo tempo com uma base parlamentar pequena e sem nada conseguir. Foram 17 anos até 2002. Em 2014, os tucanos vão completar 12 anos nessa situação.
50 anos depois
Saiu hoje na Folha de S. Paulo:
Jânio queria o poder absoluto, mas fracassou
Presidente acreditava que voltaria ao Planalto com o apoio da população, mas esqueceu de consultar os militares
IMAGINOU QUE RETORNARIA A BRASÍLIA NOS BRAÇOS DO POVO. PURO DELÍRIO. SAIU DE CUMBICA GUIANDO UM DKW |
MARCO ANTONIO VILLA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Jânio Quadros foi eleito presidente com 48% dos votos (na época não havia segundo turno), mas renunciou após sete meses de governo, a 25 de agosto de 1961.
Jogou o país numa grave crise política, que só foi encerrada, duas semanas depois, com a posse do vice-presidente João Goulart, mas com a mudança do regime político, do presidencialismo para o parlamentarismo.
Jânio teve uma carreira meteórica: em sete anos passou de prefeito de São Paulo (1953) a governador (1954) e presidente eleito (1960).
O janismo foi um fenômeno político paulista, produto da transição de uma sociedade de massas para uma sociedade de classes. Nos anos 40 e 50, a grande migração nordestina e mineira alterou profundamente o Estado, tal como a expansão da industrialização e a urbanização.
As maiores greves da década de 50 tiveram São Paulo como palco principal (1953 e 1957). A primeira delas coincidiu com sua eleição para a prefeitura da capital. Jânio apoiou os grevistas. Sabia que tinha de fazer um discurso dirigido aos mais pobres, apoiando as demandas sociais (transporte coletivo, escolas, hospitais) da cidade que mais crescia no mundo.
Ele foi o primeiro político que transformou o combate à corrupção em plataforma eleitoral. Usou como símbolo a vassoura, provavelmente inspirado numa passagem de "O Escândalo do Petróleo e Ferro" de Monteiro Lobato.
Com a vassoura, um gestual histriônico e um português recheado de formas oblíquas, transformava cada comício em um show.
Venceu a eleição para a prefeitura sem base partidária, outra característica sua.
Usou como slogan "o tostão contra o milhão", simbolizando a disputa contra uma poderosa coligação de nove partidos e com muito dinheiro. Repetiu a dose, meses depois, em 1954, derrotando seu arqui-inimigo, Adhemar de Barros, para o governo do Estado. Desta vez cumpriu integralmente o mandato.
Abriu vários inquéritos para apurar supostas irregularidades dos governos anteriores. Insistia na tese de que para ele a política era um enorme sacrifício pessoal e que aguardava ansioso o final do governo para se recolher a vida privada. O sofrimento era pura representação. Em 1958 foi eleito deputado federal pelo Paraná.
Não compareceu a nenhuma sessão do Congresso. Era mais uma característica sua: o desdém pelo Legislativo.
Dois anos depois, representando o mesmo papel -de candidato solitário que recebia apoio de partidos e não como representante de partido- derrotou Teixeira Lott, apoiado pelo presidente Juscelino Kubitschek. Obteve este feito nacionalizando seu discurso. De fenômeno paulista transformou-se em um fenômeno nacional.
Na Presidência esgotou seu potencial renovador. Reforçou suas características mais conservadoras. Não teve problemas com o Congresso: aprovou tudo o que considerava importante. Fez um governo bipolar. Adotou um programa econômico conservador. Desvalorizou a moeda, e a inflação subiu.
Em contrapartida implantou a política externa independente, rompendo com o alinhamento automático com os EUA em plena Guerra Fria, quando a questão cubana estava no auge. Buscou estabelecer uma relação direta com os governos estaduais. Imiscuiu-se em questões da esfera privada: chegou a proibir os biquínis.
Mas o que parecia novo estava carregado do velho golpismo latino-americano. Desejava o poder absoluto. Tentou um golpe de sorte: a renúncia. Isto sem que tivesse ocorrido nenhuma grave crise. De forma abrupta resolveu abandonar a Presidência. Foi uma ação tão intempestiva que até assustou os ministros militares, que não foram consultados e nem tinham um plano para um golpe, apesar de suas simpatias pelo autoritarismo janista.
Imediatamente deslocou-se para São Paulo. Imaginou que retornaria a Brasília nos braços do povo e com amplos poderes. Puro delírio. Saiu da base aérea de Cumbica solitário, guiando um DKW, rumo ao litoral, de onde partiu dias depois para a Inglaterra.
E passou três décadas tentando explicar a renúncia.
O auge do janismo ocorreu no momento de transição da política nacional. Reflexo de uma sociedade em rápida mudança, com vários desafios a serem enfrentados sem que o sistema político possibilitasse respostas eficazes.