Uma possível surpresa

O PSol terá dois senadores na próxima legislatura. E os dois eleitos por 8 anos (não é o caso de Nery, que ficou 4 anos, pois era suplente da Ana Julia). Podem criar problemas para o governo. O bom é que devem agitar um pouco a Casa, marcada pelos escândalos, a impunidade (Agaciel Maia, o ex-diretor foi eleito deputado distrital no DF) e a relação de submissão e troca de favores com o Executivo.


A oposição deve ficar restrita a estes dois senadores e mais uns 3 ou 4 (Aloysio e Itamar, com certeza, mais Simon e Jarbas). De resto, teremos um Senado submisso e controlado pela dupla Sarney-Renan.

Duas semanas

É muito pouco tempo para avaliar qualquer governo. Dilma está tentando construir a sua forma de governar. Não vai ser fácil. Lula foi, como presidente, um excelente comunicador. O silêncio de Dilma foi considerado algo inteligente por alguns jornalistas. Lembrei do Lima Barreto acabando com o Floriano justamente sobre o silêncio do Marechal de Ferro (no clássico "Triste fim de Policarpo Quaresma"). Dizia o grande Lima, que Floriano ficava em silêncio porque não tinha nada a dizer, era limitado.


O saque do Estado continua a todo vapor. O que Dilma está fazendo é tentar dar uma "racionalidade" a este nefasto processo. Só. nada mais que isso. Falar em ética é piada, como sabemos.

Outro ponto que está claro é a ofensiva contra o governo de São Paulo. Alckmin vai passar 4 anos sob fogo cerrado do Governo Federal, das empresas estatais e dos críticos pagos regiamente pelo Erário. O PT sabe que poderá vencer a próxima eleição presidencial. Mas sabe também que tem de destruir o poder que a oposição tem em SP. Para isso fará aliança até com o demônio.

Procura-se a oposição

Publiquei hoje em O Globo:


É rotineiro dizer que a propaganda é a alma do negócio. Na política, ela é ainda mais importante. No Brasil, a presidência Lula foi aquela que melhor compreendeu a necessidade de transformar qualquer ato do governo em propaganda. E mais: através da Secretaria de Comunicação Social, pagando entre mil e três mil reais mensais, obteve de 4.200 veículos de comunicação, quase todos no interior do país, apoio irrestrito ao governo. A veiculação da propaganda oficial foi o pretexto para a transferência dos recursos. Para os grandes centros, o caminho foi o "apoio cultural" a centenas de artistas através do Ministério da Cultura e, principalmente, dos bancos e empresas estatais (especialmente a Petrobras). Juntamente com os milhares de assessores incrustados na máquina estatal, a estrutura partidária do PT e, secundariamente, com o apoio dos outros partidos da base no Congresso Nacional, foi construída uma máquina de propaganda nunca vista no Brasil.

No passado tivemos o Departamento de Imprensa e Propaganda, durante o Estado Novo (1937-1945), ou a Assessoria Especial de Relações Públicas, notabilizada durante o governo Médici (1969-1974). Mesmo assim, havia uma oposição, tolerada ou não. Mas a Secom superou amplamente seus antecessores. Foi tão eficaz que até convenceu os opositores, que ficaram surpreendidos quando, no primeiro turno, 54% dos eleitores votaram contra o governo na eleição presidencial. Ou seja, a oposição estava mais convencida dos êxitos do governo do que os eleitores.

A euforia construída artificialmente pela propaganda dá a entender que vivemos uma expansão econômica em ritmo chinês. Entretanto, na média dos últimos 8 anos, o Brasil cresceu aproximadamente 1/3 do que a China, bem menos do que no quinquênio juscelinista (1956-1961) e menos ainda do que no "milagre econômico" (1968-1973). Se houve uma melhor distribuição de renda e enorme expansão do crédito, os indicadores sociais continuam muito ruins, e isto é o que mais importa.

Habilmente - mas extremamente nocivo para o futuro do país -, o governo fez uma opção preferencial: deixou de lado o enfrentamento dos graves problemas nacionais (que nem sempre redunda imediatamente em votos) e escolheu o distributivismo primitivo, das migalhas, para os setores mais pobres, deixando para o grande capital lucros nunca obtidos na história. Eleitoralmente foi um sucesso. Elegeu Dilma, uma desconhecida para a maioria dos seus eleitores 3 anos atrás.

Contudo, esta política não poderá ter vida longa. É produto de uma conjuntura econômica internacional favorável, da eficiência do setor primário (mas que em alguns setores já atingiu seu limite) e do aprofundamento de um modelo exportador que está desindustrializando o país. Destas combinações - e do oportunismo eleitoral do distributivismo primitivo - os grandes prejudicados serão o país e os mais pobres - que continuarão pobres ad aeternum. Sem a rápida melhora dos indicadores sociais, a situação de pobreza não vai ser alterada simplesmente pelos programas assistenciais. Somente políticas públicas que efetivamente enfrentem os péssimos indicadores de saúde, educação, habitação e saneamento básico é que poderão retirar milhões de brasileiros da miséria. Para isso é necessário haver ousadia, esforço, competência administrativa e um plano estratégico para o país, tudo que em oito anos Lula não fez - e que dificilmente Dilma fará.

O novo governo já nasceu velho. Administra o varejo. Faz a pequena política. Reforça o conservadorismo. Tem uma fórmula nefasta para vencer eleições. Deseja manter tudo como está. O importante é o poder. É através dele que é possível atender às burocracias partidárias, sindicais e das empresas estatais. Além de estabelecer uma aliança com o grande capital parasitário, lucrativa para ambos.

A oposição assiste a tudo calada. Nem sequer protesta. Está mais preocupada com possíveis candidatos para 2014, mas esqueceu de fazer política em 2011. Ela tem um compromisso histórico com o país. Deve romper com a inércia e não ficar assustada com a propaganda oficial. Deixar de lado - ao menos neste momento - os projetos personalistas. Não faltam bons quadros políticos. Pode elaborar um programa mínimo. Tem todas as condições para acompanhar as atividades do governo, denunciar e propor alternativas. Com uma base governamental ampla e sedenta de cargos, não faltarão oportunidades para explorar as contradições. A eleição do presidente da Câmara pode ser uma primeira oportunidade para a oposição começar a fazer política.

Estranho republicanismo.

No Brasil um político gosta de ser tratado pelo cargo mais alto que ocupou. São chamados até a morte de senadores, deputados, governadores, prefeitos, etc. Como se fossem títulos e não meros cargos assumidos por um tempo determinado, como em qualquer república. Alguns poderão dizer que é o hábito monárquico e que o cargo acaba, com o tempo, virando um título nobiliárquico. Contudo, isto não tem qualquer relação com o espírito republicano, aquele da propaganda (1870-1889) e que levou ao 15 de novembro.


Um destes "republicanos da época da propaganda" escreveu, em 1899, que a república tinha apenas sido anunciada dez anos antes, mas que não tinha ainda sido proclamada. A frase é boa e atual. Basta retornar ao episódio das férias do ex-presidente Lula em uma instalação do exército. Em qualquer país politicamente sério seria um escândalo. Aqui já é considerado assunto vencido. Quem toca no assunto pode ser considerado um chato, um indelicado. A oposição está silenciosa, como de hábito. O Ministério Público finge que não é com ele. E Lula continua lá comendo e bebendo às custas do erário e com uma tropa de mais de 20 acompanhantes.

E se fosse um ex-presidente de outro partido, como o PT agiria?

Reparação

Lula e a história (2)

Não custa imaginar o escândalo que o PT faria - caso estivesse na oposição - se um presidente, ao final do mandato, levasse para casa 11 caminhões com presentes recebidos no exercício do cargo, Denunciariam até a exaustão o caminhão "climatizado" lotado de bebidas, os mais de 100 ternos que Lula levou para casa (e que foram pagos pelo erário), os vestidos de dona Marisa, etc, etc. Mas a sorte de Lula (e várias vezes escrevi que ele é um homem de sorte) é que a oposição está de férias. Afinal, foi muito ativa nos últimos 8 anos.


Não podem ser esquecidos também os passaportes diplomáticos para o neto (é interesse do país?) e do bispo da Record/Universal.

É importante destacar o silêncio das "autoridades". Será inevitável para Lula ter de responder, quando der a primeira entrevista (e que não vai tardar), sobre estes fatos. E não tem mais o cargo como instrumento de coação, nem a estrutura de "comunicação social" (muito pior que o DIP) montada por Franklin Martins.

Lula na história

Pode já ter começando o longo processo de desconstrução de Lula. É o retrato que vai ficar para a história.


Longe do governo, mesmo que por apenas 6 dias, já começaram a pipocar várias denúncias. Agora não pode mais responder com todo aparato de Presidente da República, o que dá um grau de veracidade muito maior do que se a resposta for como um simples cidadão.

Seus filhos foram acusados (e não é de hoje) de obterem vários favorecimentos. Moram em apartamentos alugados mas não pagam aluguel. Tem passaporte diplomático, outro absurdo.
Lula passa férias em imóvel da União e tem todas as despesas pagas, o que é absolutamente ilegal.

Deixou várias bombas de efeito retardo para Dilma, especialmente na área econômica. Logo ela ou os ministros vão ter de se defender e imputar ao antecessor os problemas.

Ah se no Brasil tivesse uma oposição atuante.....