Sinais de mudança

A oposição mudou. Bom. Quer ser oposição. Tem atacado no horário gratuito (em tempo: horário gratuito que custa ao Tesouro 800 milhões) o governo. Tem de continuar a mostrar locais públicos para denunciar, como fez com a parte hospitalar. Não faltam exemplos de descaso. E dar um ar jornalístico ao programa, menos artificial, mais combativo. E deixar o eleitor falar.

Por outro lado, em Minas, Anastasia está passando Hélio Costa. Ainda é cedo para saber se isto, naquele estado, vai ter alguma repercussão na eleição presidencial.

Amanhã tem artigo na Folha de S. Paulo.

1989

Com todos os defeitos (e foram muitos), a campanha de 1989 foi a melhor das eleições presidenciais plenamente democráticas. O conjunto de candidatos era muito (mas muito mesmo) superior (em termos de história e formação política) às eleições posteriores (1994, 1998, 2002, 2006 e 2010). E mesmo em termos programáticos, apesar das propostas exóticas, fruto ainda da Guerra Fria (o muro de Berlim caiu naquele ano). A eleição de 2010 está se desenvolvendo em ritmo lento, desinteressante, sem o principal: política. Acaba fortalecendo ainda mais a despolitização popular, isto em um país em que a política nunca foi relevante, assunto das pessoas, das famílias.

Governos estaduais e eleição presidencial

Vamos ver qual a influência das eleições estaduais (somente nestes dias, o eleitor está prestando mais atenção nos canidatos aos governos dos estados) para a eleição presidencial. Serra precisa ganhar uns 6 pontos para ter o segundo turno. Dilma deve sumir dos debates e das aparições externas (evitando entrevistas). Mas para a oposição tentar, ao menos, jogar a eleição para o segundo turno, precisa fazer o óbvio: um discurso de oposição.

Congresso

Tudo indica que o próximo Congresso será pior que o atual. Em parte, como escrevi na quarta, devido à despolitização da eleição para o Executivo federal. Mas a legislação eleitoral acaba favorecendo os cacarecos. A cláusula de barreira, se adotada, seria uma revolução. Deixaria cerca de 8 partidos com representação no Congresso. Levaria a uma enorme mudança nos hábitos políticos. Por estranho que pareça, o atual Congresso aprovou a cláusula de barreira mas o STF derrubou (argumentando que seria necessário uma emenda à Constituição). E o assunto caiu no esquecimento. Já o voto distrital, que seria importantíssimo, e acabaria com o voto cacareco, este dificilmente será adotado, nem mantendo a distribuição atual dos estados na Câmara (mexer nisso é impossível, nenhum estado quer perder, mesmo que seja somente uma cadeira).

Desta forma, o Executivo fica livre para fazer o que bem desejar. O papel histórico de vigilância do Legislativo, triste Brasil, será exercido Tiririca, Marcelinho Carioca ou pelo Romário.

Mais um Datafolha

A pesquisa publicada reforça tudo o que já escrevi. O programa de TV é péssimo. Basta andar pelo Brasil e conversar com as pessoas. Tradicionais eleitores de Serra vão votar na Dilma. As pessoas estão estarrecidas com a estratégia de campanha. Ninguém entende o medo do enfrentamento.

O grande desafio é refazer a estratégia rapidamente. Mas acho difícil. Parece que o candidato ruma satisfeito para o suicídio político.

Algumas questões são óbvias. Escrevi (basta ver os posts anteriores e os artigos que publiquei especialmente desde 2005) e falei que oposição é um processo. É construída ao longo do tempo. Isto não foi feito. E pior: quando chegou o momento da eleição, a oposição sumiu. Imputar ao outro (a situação) um poder tão avassalador que não seja possível enfrentá-lo, é uma enorme bobagem.

Eleição sem política

Publiquei hoje na Folha de S. Paulo:


GANHAR ELEIÇÃO é uma possibilidade, fazer política é um imperativo. O Brasil poderá com esta campanha inaugurar uma nova forma de pleito presidencial: sem debate, sem polêmica, sem divergência e sem oposição.

Nas últimas cinco eleições tivemos disputa em três delas. Mas disputa mesmo, só em 1989. Em 1994 e 1998, FHC venceu Lula facilmente, as duas no primeiro turno.

Em 2002 e 2006, Lula foi como franco favorito para o segundo turno. Eu esperava que teríamos uma eleição diferente em 2010: sem Lula e com oposição que transformasse o pleito em um momento de amplo debate nacional.

Rotundo equívoco. Lula é candidatíssimo, aparece mais que Dilma. E pior: a oposição não apareceu ao encontro marcado. Como um aluno relapso, faltou justamente no momento da avaliação, a eleição.

Na República Velha, a oposição concorria sabendo que o resultado seria fraudado. Era o momento de, ao menos, marcar posição e acumular forças para um novo embate. Agora -e de forma surpreendente- nem isso está ocorrendo. Confesso que a cada dia que assisto ao horário eleitoral fico mais estarrecido.
Este triste panorama terá efeito direto sobre o Legislativo. Tudo indica que o futuro Congresso será muito mais governista que o atual. E também com um número expressivo de "deputados cacarecos", o maior da história recente, produto direto da inexistência do debate político.
A despolitização abre campo para que ex-jogadores de futebol, comediantes, cantores e celebridades instantâneas sejam considerados puxadores de votos para partidos de todos os matizes.

Outro efeito nefasto da despolitização é a permanência (e até ampliação) dos representantes dos oligarcas. Quase todos os sobrenomes que simbolizam o que há de pior na política brasileira estão apoiando a candidata oficial. São espertos. Tratam Lula como se fosse um dos seus. E, por incrível que pareça, ele acabou se transformando em uma espécie de "capo" dessas famílias.

Parodiando Sílvio Romero, no célebre discurso de recepção a Euclides da Cunha na ABL, Lula chegou "à suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social".

A apatia política tem preço. E muito alto para o país. A fuga da oposição do debate, o medo do enfrentamento, a recusa de se opor, pode abrir caminho para um longo domínio do Estado por parte de um bloco conservador, sem espírito republicano, com tinturas caudilhistas e desejos de impor sua vontade à força.

Marasmo

Mais um dia e nada aconteceu de relevante. É a campanha mais apática desde 1989. Pode ser que se compare com a de 1998, quando Lula saiu candidato meio que obrigado. Fez uma campanha sem entusiasmo. No final deu uma entrevista dizendo que queria abandonar a política, que seu sonho era ter nascido rico e por aí afora (basta consultar a imprensa da época).

No campo racional é difícil entender o que está acontecendo com a oposição. Não é falta de material para o seu discurso. Não faltam temas. Mas não estão disputados. É de uma passividade irritante.

Pode ser, depois de outubro, quando muita coisa vier à tona, poderemos ter informações para poder construir uma história desta eleição presidencial.

Como na eleição presidencial nada ocorre, a atenção passou para os candidatos cacarecos. Melhor para eles, terão mais votos.

Em tempo: amanhã tem artigo na Folha.