É golpe!
A ameaça, pois é uma ameaça, de Lula de que pretende percorrer o país para se despedir do povo é algo gravíssimo. Lula está brincando com a democracia e zombando da Constituição, do TSE, dos partidos políticos e mais ainda dos cidadãos.
Lula flertou com a possibilidade do terceiro mandato. Acabou abandonando a idéia pois sentiu que não seria aprovada pelo Congresso Nacional, especialmente pelo Senado (tinha na mente a derrota da CPMF).
Dilma passou a ser a possibilidade do terceiro mandato. Mas no decorrer do mês de abril, devido a péssima performance de Dilma, acabou levando Lula a ter de fazer a campanha em nome da candidata. Só dessa forma é que é possível entender a proposta da caravana da despedida ( o PT gosta de caravanas).
Não é preciso muita imaginação para prever o que deve ocorrer: Lula exaltado no palanque, populares emocionados (muitos chorando), faixas espalhadas pedindo que ele fique e, sem exagero, deve sair do ato carregado pelo povo.
Esta encenação está sendo planejada para desviar a atenção popular do desastre (anunciado, vale lembrar) da candidatura Dilma. Isto tem nome: é golpe!
Lula candidato
São preocupantes as últimas movimentações eleitorais de Lula. Vamos aos fatos:
1. a rede de rádio e tv de ontem. Ele pode querer aproveitar qualquer feriado ou inventar um pretexto, para discursar e entrar indevidamente na campanha;
2. jornais noticiaram que ele está preocupado com o desempenho da Dilma (e tem, certamente, muitos motivos) e que no segundo semestre, após a Copa, vai percorrer o país para se despedir da presidência. E, claro, vai dizer que a continuidade do seu governo é Dilma. Ou seja, vai fazer explícitamente (e ilegalmente) a campanha no lugar da candidata;
3. autorizar gastos públicos (como promessa de obras e liberações de emendas parlamentares) simplesmente para favorecer a candidata oficial.
A oposição vai ter muita dificuldade para barrar as investidas de Lula. Vamos ver como vai agir (quando acionado) o TSE.
Breve balanço do mês
Tentando fazer um balanço deste mês de abril, algumas constatações são possíveis:
1. A maior derrotada foi Dilma Rousseff. Cometeu muito erros, mostrou fragilidades, não agregou novos apoios. Reforçou a tese de que necessita de Lula sempre ao seu lado. É um mês para esquecer;
2. José Serra foi o oposto: ganhou espaço na mídia, evitou o confronto com Lula (é que é tão desejado pelo presidente), lançou pontes para rachar a base governista visando ampliar o tempo de TV, foi cuidadoso nas declarações evitando assuntos polêmicos e, em algumas ocasiões, falou o que o eleitor queria ouvir. Usando uma metáfora futebolísitca: como está vencendo o jogo, valorizou a posse da bola, sem recuar para seu campo, e começou a jogar no erro do adversário;
3. Marina Silva fez uma campanha mais silenciosa, evitou confrontos desnecessários e está ganhando espaço. Pode surpreender. Não será uma espécie de Cristovam Buarque de 2006. Tende a crescer nas pesquisas estabelecendo uma relação inversa com Dilma: Marina sobe, quando Dilma cai. Muitos eleitores do PT vão votar na Marina. E este número deve crescer quanto mais erros cometer a candidata oficial.
Propaganda eleitoral.
Lula convocou uma rede nacional de rádio e televisão. Motivo: falar do aumento do salário mínimo. Mero pretexto. Fez propaganda da sua candidata de forma subliminar. Não creio ter sido acidental. Precedente perigoso. Cabe à oposição acionar o TSE.
Plínio e a candidatura do PSOL
Plínio de Arruda Sampaio deve ser o candidato do PSOL à presidência. O partido está dividido. Uma parcela - tendo à frente Heloisa Helena - defende a aliança com a candidatura Marina Silva, do PV. Outra - que parece majoritária - apoia uma candidatura própria e lançou Plínio. O mais importante é saber qual a plataforma do partido. Pelo que disse Plínio, na reunião do PSOL, ele é contra tudo o que está aí. Lembra um pouco o PT de antigamente.
O PSOL deve fazer uma campanha defendendo um programa socialista para o Brasil. Nada mais distante da realidade. Vai disputar com o PSTU, PCO e PCB - que devem lançar candidatos - o espaço à esquerda. Não causará estranheza se os 4 partidos somados atingirem 1% dos votos.
Grande parte da esquerda brasileira até hoje não assimilou a queda do muro de Berlim. É como se nada tivesse acontecido, desde 1989. Mantém as mesmas propostas, defende o mesmo programa, age da mesma forma. E a cada eleição fica mais isolada. O primeiro passo para sair do isolamento é rever seus postulados, romper com velhíssimos dogmas, não temer o novo.
Temas da campanha.
Em meio as fofocas, boatos e piadas, alguns temas da campanha começam a aparecer. Segurança Pública é um deles. Serra propôs criar um ministério exclusivamente para esta função. Dilma discordou e disse que é tarefa do Ministério da Justiça. Esta discussão deve seguir até outubro. Segurança é uma das maiores preocupações da população. Quem conseguir apresentar as melhores propostas (e neste ponto Serra, tomou a iniciativa), vai ganhar a preferência popular.
Diversamente do que afirmaram diversos analistas, a política externa vai ser tema de campanha pela primeira vez. Já tinha apontado na Folha de S. Paulo de 4 de outubro de 2009 que "um dos grandes desafios para o século XXI brasileiro é a construção de uma política externa global que enfrente os desafios da nova ordem internacional. Um bom caminho para dar início a essa discussão é aproveitar a próxima eleição e, pela primeira vez, transformar a política externa em tema eleitoral."
Primeiro turno?
Em março Lula dizia, via imprensa, que Dilma poderia ganhar no primeiro turno. Era secundado por analistas simpáticos ao governo. Desta forma, achava que poderia criar uma "onda Dilma" que arrasaria a oposição. Ledo engano. Da mesma forma, discordo daqueles que, nesta semana, estão dizendo que Serra pode vencer no primeiro turno.
Esta eleição - volto a dizer - será a mais disputada da história recente do Brasil. E terá segundo turno.