Desinteresse e apatia.

A tragédia na região serrana do Rio é cada dia pior. Muitos distritos estão isolados. Os mortos já passaram de 700. relatos descrevem que muitos corpos foram retirados pelos moradores que escavavam a terra com as mãos. Mortos foram enterrados nos quintas das casas.


O poder público silenciou. A oposição está muda. O país finge que nada está acontecendo. É bem o retrato do Brasil contemporâneo.

Biblioteca Mário de Andrade (2)



A polêmica sobre a BMA continuou. Este artigo foi publicado na Folha a 9 de junho de 2004.


O futuro de uma biblioteca

MARCO ANTONIO VILLA

É típico do stalinismo responder uma interpelação com várias acusações. O diretor da Biblioteca Mário de Andrade (BMA) lembra o promotor Vishinski, dos célebres Processos de Moscou: acusa sem provas e deslegitima qualquer opinião ("Verdades a respeito da Mário de Andrade", pág. A3, 4/6). Não sou seu opositor, mas simplesmente um usuário da Mário de Andrade. A violência das respostas dos senhores da BMA é que causa estranheza. Ainda bem que vivemos numa democracia, caso contrário...
Creio que a desinformação do comissário, digo, do diretor da BMA sobre o cotidiano da biblioteca se deve à tripla função que exerce: na editora da Unesp, como professor no campus de Araraquara e na direção da biblioteca. Isso explica o fato de nunca ter me visto na Mário, assim como eu nunca o vi. Recordo que, nos meus livros, sempre fiz questão de agradecer o apoio dos funcionários da biblioteca.
Mas o que interessa não é esse desencontro. Estou denunciando a destruição de uma biblioteca, a maior da cidade, que desde 1993 está abandonada pelo poder público. Isso não tem nenhuma relação com o calendário eleitoral, como acusou o ex-secretário de Cultura Marco Aurélio Garcia e repetiu de forma obediente o diretor da BMA. Eleitoral é responder uma crítica à biblioteca citando os CEUs. O que têm a ver os CEUs com a Mário de Andrade?


É inexplicável financiar o Colégio de São Paulo. É essa a atividade-fim da Mário de Andrade?


Os números apresentados pelo diretor são fictícios. Triplicou o número de consulentes? Basta qualquer cidadão entrar na biblioteca e ver que ela está mais vazia do que o estádio do Canindé em jogos da Lusa. E os setores fechados? E o quase desaparecimento dos bibliotecários? Centro de referência? Como, se o acervo está totalmente desatualizado? Lembra Pedro Nava, em "O Galo das Trevas", e isso se aplica à BMA, "que -neste país de analfabetos formados e analfabetos mesmo-, em vez de ter um alto-falante na porta (da biblioteca) gritando -entrem para ler!-, possui pessoal impedindo, o mais possível, acesso ao seu acervo".
Se um consulente procurar no terminal os livros que constam do acervo, nada encontrará, pois o catálogo não foi informatizado. Se for usar o xerox, é comum encontrar o setor fechado, pois falta papel, toner ou a máquina pode estar quebrada. Se precisar do setor de microfilmes, encontrará a mesma situação de abandono. Caso necessite de um periódico, é rotineiro encontrar o material semidestruído, sem nenhuma conservação. Isso quando o consulente recebe o material, pois o setor não tem funcionários suficientes para sequer transportar o material até a sala de consulta. Caso resolva buscar um livro publicado em 1995, por exemplo, também não encontrará. É compreensível que o diretor da Mário de Andrade ou o ex-secretário da Cultura não tenham passado por isso: afinal, não são pesquisadores.
O setor de livros raros foi esquecido. Hoje, pesquisadores brasileiros ou estrangeiros não têm mais acesso ao rico acervo. Ele está fechado, ou, como prefere a direção, o acesso foi restringido. Pode ser que, depois destas denúncias, volte a abrir -o que seria uma excelente notícia. Mas passou despercebido que os ladrões que roubaram o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, também assaltaram a Mário de Andrade. Quantos livros roubaram? Quais? A administração foi omissa? Foi aberto algum inquérito? Em caso positivo, qual foi a conclusão? Nada sabemos.
Em meio à enorme carência de recursos, é inexplicável financiar o Colégio de São Paulo. É essa a atividade-fim da BMA? Evidente que não. Mas acaba servindo para ampliar as bases políticas do diretor: sabemos como a intelectualidade nativa adora uma benesse, por menor que seja. Não causará estranheza que um desses beneficiados apóie entusiasticamente o diretor, louvando a sua administração e até o seu tino acadêmico. Mas isso não mudará em nada a situação de penúria da biblioteca.
Em face de tudo isso, cabe a apresentação de propostas. A primeira é a contratação de funcionários. A segunda é a ampliação das instalações. A terceira é a atualização do acervo (por que não propor à Câmara Municipal um projeto de lei prevendo o depósito legal na BMA dos livros editados em São Paulo? Isso certamente não resolve o problema, mas dá início ao processo de atualização bibliográfica). A quarta é a preservação urgente do acervo. A quinta é a divulgação das fontes lá existentes. A sexta é a criação de um setor de doações -quantas famílias não tem um enorme acervo que poderiam doar para a Mário? Bastava selecionar as obras mais significativas, enquanto outras seriam encaminhadas às bibliotecas distritais.
Parte dessas propostas envolve pequeno investimento, mas necessita de iniciativa, de uma política cultural que não temos. Porém a direção insiste nas suas promessas: "No ano que vem...". Como no ano que vem? O término da reforma, que nem sequer começou, não era em 2003? O lamentável de todo esse episódio é que os donos da Mário, em vez de ficarem satisfeitos com a discussão sobre os destinos da biblioteca através da Folha -o que não é pouco-, responderam atacando e injuriando. Perderam uma excelente oportunidade para democratizar o debate sobre uma biblioteca tão importante no passado recente da nossa cidade.


Velhos problemas

Dezoito dias de governo e o panorama é o mesmo que o do ano passado. Ou até pior. Dilma faz o tipo de presidente oculta. Quer mostrar que está trabalhando. Não parece. O descaso das autoridades com a tragédia no Rio é uma mostra. Ela imaginou que bastava uma visita meteórica à área afetada (que não é pequena) que tudo iria ser resolvido. Errado. os ministros da Integração Nacional e das Cidades deveriam estar lá acompanhando in loco e já pensando no que é mais urgente fazer para evitar (ou diminuir) os efeitos de novas tragédias.


O PMDB está sendo acusado de corrupção na Funasa. Novidade?

A oposição está sumida. Aécio, claro, só podia ser ele, disse que a oposição tem de ser patriótica! Lembrou o general Geisel que dizia que a oposição deveria ser construtiva, responsável.

Os 44 milhões de oposicionistas são mera ficção para o maior partido da oposição. Não existem. Ou estão contentes com o governo e votaram por engano no Serra.

Biblioteca Mário de Andrade


A BMA vai reabrir dia 25 de janeiro. É a maior biblioteca de São Paulo. Em 2004 iniciei o processo de discussão pública da importância da BMA para a cultura brasileira. Era necessário uma reforma urgente. Escrevi este artigo na Folha (2 de junho de 2004) e que acabou originando uma enorme polêmica. Respondi, dias depois, com outro artigo às críticas do então diretor da BMA e de um abaixo-assinado de pseudos-intelectuais, que não frequentavam a BMA e por puro oportunismo tentaram (mas não conseguiram) desqualificar as críticas. Segue o artigo:

A destruição de uma biblioteca.

No século 7, a célebre biblioteca de Alexandria sucumbiu definitivamente após mais um incêndio. Em São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade não precisou de nenhum conquistador para ser destruída: bastaram os últimos dois prefeitos e a gestão de Marta Suplicy.

Hoje, a Mário de Andrade vive o momento mais grave de sua história. Abandonada pelo poder público municipal, está à mingua, sem funcionários para os serviços essenciais, raros bibliotecários -pois grande parte se aposentou nos últimos anos- e com o prédio em situação precária. A única intervenção do governo municipal foi a realização de uma pequena obra na praça Dom José Gaspar, meramente decorativa -tanto que o monumento em homenagem ao poeta simbolista Cruz e Souza, destruído desde 2002, continua jogado no jardim que cerca a praça.

Porém o prédio que reúne o acervo de mais de 300 mil livros -grande parte doada, apesar de hoje não existir nenhum setor para receber bibliotecas- continuou intocado.

A crise da biblioteca vem desde a gestão Paulo Maluf. Depois de uma grande reforma no final do governo Luiza Erundina, o prédio foi reinaugurado às pressas, no final de 1992, pouco antes da eleição municipal. Para Maluf, nunca uma biblioteca foi prioridade, muito menos a Mário de Andrade. Durante sua administração foram transferidos para lá muitos funcionários da Secretaria da Saúde que não aderiram ao PAS. De uma hora para outra, atendentes, auxiliares de enfermaria, funcionários burocráticos dos hospitais foram transferidos para um ambiente distinto: em vez dos doentes, tinham de cuidar dos livros.

Os serviços da biblioteca continuaram funcionando precariamente e não foi comprado sequer um livro para o acervo. Nos quatro anos seguintes, os problemas foram se agravando: o acervo continuava desatualizado e necessitando de conservação, os equipamentos estavam deteriorados, as vagas dos aposentados não foram preenchidas, o prédio, devido à pressa na entrega da reforma, apresentava graves problemas hidráulicos e elétricos.

Esperava-se que, na administração do PT, tudo fosse mudar. Doce ilusão. Um dos primeiros atos do então secretário da Cultura, Marco Aurélio Garcia, por incrível que pareça, foi a proposta de fechar a biblioteca, o que não ocorreu graças à mobilização dos funcionários, que realizaram um "abraço ao prédio". Acreditava-se que tudo não tivesse passado de um engano do secretário, que desconhecia a riqueza do acervo da biblioteca, por não ser um consulente daquele espaço. Mas, se não havia recursos para manter a biblioteca, havia para fundar o Colégio de São Paulo, à semelhança do Colégio de França, criado por Francisco 1º, tendo como local a própria biblioteca.

Puro marketing para imortalizar a prefeita como uma protetora das artes, uma Catarina 2ª tupiniquim, infelizmente sem um Diderot.

Contudo a atividade-fim da biblioteca, o atendimento dos consulentes, foi, apesar dos esforços dos funcionários, piorando a cada dia, pela absoluta falta de recursos. Em 2004, a situação chegou a um ponto intolerável. O setor de cabines, reservado aos pesquisadores, que funcionava sofregamente, foi simplesmente fechado. Logo em seguida mais uma péssima notícia: o setor de livros raros, que só abria no período da tarde, também foi fechado. Para quem não conhece, o setor de raros tem um importante acervo e, dependendo da área, é indispensável para inúmeros pesquisadores nacionais e estrangeiros.

Mas a lista de problemas continua: as máquinas leitoras de microfilmes vivem quebradas; quando funcionam não podem tirar cópias, pois falta papel ou falta toner. O acervo até hoje não foi informatizado e nem sequer existem banheiros abertos para o público em quantidade suficiente. Devido à ausência generalizada de funcionários, o horário de todos os setores que ainda funcionam deve ser reduzido, indo na contramão das políticas de bibliotecas em todo o mundo, que cada vez mais ampliam os horários de atendimento: algumas ficam abertas 24 horas. E, pior, nos três anos e meio de gestão do PT não foi comprado nem um mísero livro, o que iguala a triste marca cultural da dupla Maluf-Pitta.

Diante desse quadro, é natural que os pesquisadores tenham abandonando a biblioteca. A solução foi buscar outro local, em São Paulo ou em outro Estado -especialmente a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Todavia é inexplicável o silêncio complacente de todos aqueles que utilizaram os serviços da biblioteca e que agora assistem calados à sua destruição. Uma política emergencial de conservação e ampliação do acervo, de recebimento de doações de livros e revistas, de unificação do acervo -pois parte está em Santo Amaro-, de reposição de funcionários e pleno funcionamento de todos os setores da biblioteca antecede qualquer programa de reforma, por mais importante que seja. E mais: a Mário de Andrade tem de voltar a ser uma biblioteca de referência e de visitação pública.


Uma possível surpresa

O PSol terá dois senadores na próxima legislatura. E os dois eleitos por 8 anos (não é o caso de Nery, que ficou 4 anos, pois era suplente da Ana Julia). Podem criar problemas para o governo. O bom é que devem agitar um pouco a Casa, marcada pelos escândalos, a impunidade (Agaciel Maia, o ex-diretor foi eleito deputado distrital no DF) e a relação de submissão e troca de favores com o Executivo.


A oposição deve ficar restrita a estes dois senadores e mais uns 3 ou 4 (Aloysio e Itamar, com certeza, mais Simon e Jarbas). De resto, teremos um Senado submisso e controlado pela dupla Sarney-Renan.

Duas semanas

É muito pouco tempo para avaliar qualquer governo. Dilma está tentando construir a sua forma de governar. Não vai ser fácil. Lula foi, como presidente, um excelente comunicador. O silêncio de Dilma foi considerado algo inteligente por alguns jornalistas. Lembrei do Lima Barreto acabando com o Floriano justamente sobre o silêncio do Marechal de Ferro (no clássico "Triste fim de Policarpo Quaresma"). Dizia o grande Lima, que Floriano ficava em silêncio porque não tinha nada a dizer, era limitado.


O saque do Estado continua a todo vapor. O que Dilma está fazendo é tentar dar uma "racionalidade" a este nefasto processo. Só. nada mais que isso. Falar em ética é piada, como sabemos.

Outro ponto que está claro é a ofensiva contra o governo de São Paulo. Alckmin vai passar 4 anos sob fogo cerrado do Governo Federal, das empresas estatais e dos críticos pagos regiamente pelo Erário. O PT sabe que poderá vencer a próxima eleição presidencial. Mas sabe também que tem de destruir o poder que a oposição tem em SP. Para isso fará aliança até com o demônio.

Procura-se a oposição

Publiquei hoje em O Globo:


É rotineiro dizer que a propaganda é a alma do negócio. Na política, ela é ainda mais importante. No Brasil, a presidência Lula foi aquela que melhor compreendeu a necessidade de transformar qualquer ato do governo em propaganda. E mais: através da Secretaria de Comunicação Social, pagando entre mil e três mil reais mensais, obteve de 4.200 veículos de comunicação, quase todos no interior do país, apoio irrestrito ao governo. A veiculação da propaganda oficial foi o pretexto para a transferência dos recursos. Para os grandes centros, o caminho foi o "apoio cultural" a centenas de artistas através do Ministério da Cultura e, principalmente, dos bancos e empresas estatais (especialmente a Petrobras). Juntamente com os milhares de assessores incrustados na máquina estatal, a estrutura partidária do PT e, secundariamente, com o apoio dos outros partidos da base no Congresso Nacional, foi construída uma máquina de propaganda nunca vista no Brasil.

No passado tivemos o Departamento de Imprensa e Propaganda, durante o Estado Novo (1937-1945), ou a Assessoria Especial de Relações Públicas, notabilizada durante o governo Médici (1969-1974). Mesmo assim, havia uma oposição, tolerada ou não. Mas a Secom superou amplamente seus antecessores. Foi tão eficaz que até convenceu os opositores, que ficaram surpreendidos quando, no primeiro turno, 54% dos eleitores votaram contra o governo na eleição presidencial. Ou seja, a oposição estava mais convencida dos êxitos do governo do que os eleitores.

A euforia construída artificialmente pela propaganda dá a entender que vivemos uma expansão econômica em ritmo chinês. Entretanto, na média dos últimos 8 anos, o Brasil cresceu aproximadamente 1/3 do que a China, bem menos do que no quinquênio juscelinista (1956-1961) e menos ainda do que no "milagre econômico" (1968-1973). Se houve uma melhor distribuição de renda e enorme expansão do crédito, os indicadores sociais continuam muito ruins, e isto é o que mais importa.

Habilmente - mas extremamente nocivo para o futuro do país -, o governo fez uma opção preferencial: deixou de lado o enfrentamento dos graves problemas nacionais (que nem sempre redunda imediatamente em votos) e escolheu o distributivismo primitivo, das migalhas, para os setores mais pobres, deixando para o grande capital lucros nunca obtidos na história. Eleitoralmente foi um sucesso. Elegeu Dilma, uma desconhecida para a maioria dos seus eleitores 3 anos atrás.

Contudo, esta política não poderá ter vida longa. É produto de uma conjuntura econômica internacional favorável, da eficiência do setor primário (mas que em alguns setores já atingiu seu limite) e do aprofundamento de um modelo exportador que está desindustrializando o país. Destas combinações - e do oportunismo eleitoral do distributivismo primitivo - os grandes prejudicados serão o país e os mais pobres - que continuarão pobres ad aeternum. Sem a rápida melhora dos indicadores sociais, a situação de pobreza não vai ser alterada simplesmente pelos programas assistenciais. Somente políticas públicas que efetivamente enfrentem os péssimos indicadores de saúde, educação, habitação e saneamento básico é que poderão retirar milhões de brasileiros da miséria. Para isso é necessário haver ousadia, esforço, competência administrativa e um plano estratégico para o país, tudo que em oito anos Lula não fez - e que dificilmente Dilma fará.

O novo governo já nasceu velho. Administra o varejo. Faz a pequena política. Reforça o conservadorismo. Tem uma fórmula nefasta para vencer eleições. Deseja manter tudo como está. O importante é o poder. É através dele que é possível atender às burocracias partidárias, sindicais e das empresas estatais. Além de estabelecer uma aliança com o grande capital parasitário, lucrativa para ambos.

A oposição assiste a tudo calada. Nem sequer protesta. Está mais preocupada com possíveis candidatos para 2014, mas esqueceu de fazer política em 2011. Ela tem um compromisso histórico com o país. Deve romper com a inércia e não ficar assustada com a propaganda oficial. Deixar de lado - ao menos neste momento - os projetos personalistas. Não faltam bons quadros políticos. Pode elaborar um programa mínimo. Tem todas as condições para acompanhar as atividades do governo, denunciar e propor alternativas. Com uma base governamental ampla e sedenta de cargos, não faltarão oportunidades para explorar as contradições. A eleição do presidente da Câmara pode ser uma primeira oportunidade para a oposição começar a fazer política.