Canudos e os novos territórios lulistas

Este artigo foi publicado em 2006, na Folha de S. Paulo, no dia 4 de novembro de 2006:

Canudos resiste. A pequena cidade fundada por Antonio Conselheiro no nordeste da Bahia em 1893 e destruída quatro anos depois continua abandonada pelo poder público. Reconstruída no início do século 20, após o retorno de parte da população conselheirista, a cidade manteve-se isolada até a visita de Getúlio Vargas, em outubro de 1940, e a decisão governamental de construir um açude, obras que terminaram em 1969, obrigando a população a se transferir para o povoado de Cocorobó. Hoje o município tem uma ampla área territorial (2.985 quilômetros quadrados) e uma população de 13.760 pessoas. É paradigmático para tentarmos entender os resultados da eleição presidencial e a grande vitória obtida por Luiz Inácio Lula da Silva na região Nordeste. 

A Bahia tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH): está em 22º lugar, entre os 27 Estados. A cidade melhor classificada é a capital, Salvador: ocupa o 475º lugar entre os municípios brasileiros. A região de Canudos é a mais pobre do Estado. Isolada pelas péssimas estradas, sem um eficaz sistema de telefonia (celular não tem sinal na área) e assolada pela seca (o índice pluviométrico do município é um dos mais baixos do estado), os canudenses sobrevivem no limite da pobreza. O poder público federal está ausente: há somente uma agência do Banco do Brasil (e que funciona apenas das 9h às 12h).

O Produto Interno Bruto (PIB) é de pouco mais de R$ 32 milhões. O número de pessoas com registro na carteira profissional não chega a 200 (não há condições para pagar o salário mínimo e muito menos os encargos sociais). No município não há nenhum trator e o principal meio de transporte são as motos (quase 300).

A cidade depende do Fundo de Participação dos Municípios (recebe cerca de R$ 3,5 milhões), pois a receita de impostos é mínima: de IPTU foi arrecadado apenas R$ 8 mil. Há dois hospitais, cada um controlado por um dos coronéis da cidade. Ambos atendem pelo SUS. Em um ano ocorreram 13.563 internações, a média de uma por habitante (segundo dados do IBGE), apesar ter apenas 62 leitos, o que dá uma média de 218 internações por leito (a cidade tem 13 médicos, parte não reside no município).

Canudos vive de uma agricultura de baixíssima produtividade, uma pecuária baseada na criação de bode e do pequeno comércio. Apesar do açude de Cocorobó, com capacidade para armazenar 245 milhões de metros cúbicos de água, metade da cidade não recebe em suas casas o precioso líquido.

Grande parte das águas estão salinizadas e o pequeno distrito irrigado (com a presença de 150 famílias) está em péssimas condições, com a canalização arruinada, fazendo com que a renda média de cada família gire em torno de um salário mínimo mensal, segundo dados do pesquisador Luiz Paulo Neiva da Universidade do Estado da Bahia.

Mesmo com a melhoria dos índices de escolaridade, a maior parte dos jovens não tem emprego fixo. Quando trabalham, vivem de bicos. Não há indústria, atividade agrícola ou comercial que gerem empregos em quantidade suficiente para absorver a força de trabalho. O lazer é inexistente, a gravidez precoce ocorre em escala considerável e a única "diversão" são os bares. Só na principal rua, a avenida Juscelino Kubitschek, em três quarteirões há uma dúzia de bares. O alcoolismo atinge parte da população, assim como o consumo de drogas.
Foi nesta espécie de microcosmos do sertão nordestino que Lula obteve uma folgada vitória no primeiro turno, com 68,4% dos votos, e no segundo ampliou ainda mais a votação, obtendo 78,06%. Alckmin conseguiu 27,3% no primeiro turno e caiu no segundo para 21,94%. Para o governo estadual, o candidato petista, Jaques Wagner, obteve a maioria absoluta dos votos: 54,7%, em grande parte produto da "onda Lula".

As eleições romperam o domínio dos dois políticos que apresam a cidade, um do PFL, o atual prefeito (Vavá), e o outro do PSDB, ex-prefeito (Zito), que se alternam no poder desde a emancipação do município, em 1985. Na eleição presidencial tinham o mesmo candidato, Geraldo Alckmin, e foram derrotados. Mas o que chama a atenção é o número de eleitores da cidade: 10.655, isto com uma população de 13.760 pessoas, muito acima da média nacional.

O que reforça a necessidade de um recadastramento eleitoral, principalmente se for correta a informação do ministro Carlos Veloso, ex-presidente do TSE, de que no Brasil há 10 milhões de títulos fantasmas (ver Folha de S.Paulo de 16 de setembro de 2006).

É difícil encontrar alguém que não seja beneficiado pelo Bolsa Família. Se em maio eram 1.673 famílias inscritas no programa, em cinco meses, às vésperas da eleição, este número saltou para 2.246: "Não temos emprego. Tenho três filhos. Meu marido só agora arranjou um trabalho. Preferia estar trabalhando. Bolsa Família é bom mas preferia um emprego", diz Maria José Varjão, 29 anos, estudando o segundo ano do ensino médio. Em 1998 votou em FHC, em 2002 em José Serra, já em 2006 escolheu Lula. Participava dos programas sociais do governo anterior. Dos seis irmãos, três migraram, dois para São Paulo e um para Salvador. Graças a um deles construiu uma casa com o dinheiro que manda mensalmente. Mora ao lado da casa da mãe, aposentada, e que acabou se transformando em arrimo da família. "É o único dinheiro garantido que tem lá em casa.

Meus outros dois irmãos não tem trabalho fixo e quando conseguem algo é provisório: aqui ninguém é registrado", diz ela. A professora Maria Cláudia Jesus da Silva, 26 anos, nasceu em Canudos. É solteira. Tem nove irmãos. Cinco migraram para Juazeiro, Petrolina e Salvador. Migraram "porque aqui não tem trabalho". O pai também recebe aposentadoria: "Sem ela não sobrevivemos".

Uma tia está inscrita no Bolsa Família: tem nove filhos. A professora discorda do programa. Diz que "é um dinheiro fácil", "não precisa suar", diz que muitos que recebem não trabalham por vadiagem. Votou em FHC em 1998, mudou para Lula em 2002 e neste ano votou novamente nele.

O padre Lívio, da Igreja Católica, um italiano que está há vários anos em Canudos, considera que o governo Lula pouco fez pela região. Reclama que faltam investimentos. A presença do Estado manifesta-se através do programa Bolsa Família. Tem esperança de que algo pode melhorar. A ação da igreja é muito importante organizando a população na construção de cisternas, apoiando programas de saúde preventiva e no incentivo à agricultura familiar. Na semana anterior ao segundo turno, no sábado à noite teve até carreata. Com fogos.

Claro que pró-Lula. Ninguém dizia que iria votar em Alckmin. E não é exagero. A imagem que os canudenses têm do candidato opositor é de alguém muito distante do cotidiano do sertão. Muitos disseram nem sequer entender o que ele fala, outros que só o conheceram agora, na eleição. Dizem que Lula foi o único presidente "que olhou para nós". Reconhecem que falta emprego, falam da corrupção ("todo mundo rouba, mas ninguém provou que Lula é ladrão"), estabelecem identidade com a sua história ("Ele sabe o que é seca, o que é sofrimento") e relacionam Alckmin com ACM.

O semi-árido nordestino virou um território lulista. Sem estabelecer um diálogo político com os milhões que sobrevivem na região, a oposição sofrerá outra grande derrota na próxima eleição. Como disse uma canudense: "Sei que o Lula não vai ser candidato em 2010. Votarei em quem ele mandar".

Ciro e Aécio

Já começou. E veremos muito disso nos próximos 4 anos. Ciro sugeriu Aécio como presidente do Senado. Até uma simples minhoca sabe que isso é impossível. Joga para as galerias e para manter o canal aberto com Aécio (que vem desde a eleição de 2008 para prefeito de BH). Mas, desta forma, joga uma cunha para dividir a oposição. Logo veremos o oferecimento para que Aécio vá para o PSB. Se não der, aparece o PMDB para fazer parte do jogo. E até 2014 ficaremos vendo este lero-lero.

É um jogo primaríssimo para neutralizar qualquer tipo de oposição. Resta a pergunta se Aécio vai querer fazer parte deste jogo.

Em tempo 1: o comentário sobre o PMDB fica para amanhã.

Em tempo 2: agradeço a correção da leitora "bárbaranet".´Foi o Cid que disse mas, com a mais absoluta certeza, quem pensou e articulou a fala do governador do Ceará foi Ciro.

O Nordeste e as eleições

Um dos bons temas pós-eleição é o papel do Nordeste no conjunto da votação recebida por Dilma. No meu livro "Vida e morte no sertão. História das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX" (Ática, 2002, 4@ edição) trato da relação do poder central com a região e da questão política. Em dois artigos publicados na Folha de S. Paulo, ambos de 2006, voltei ao tema. Basta acessar o Google e digitar: "Cantar a gente dura e ensurdecida" e "Canudos e os novos territórios lulistas". Nestes relaciono o Bolsa Família com a eleição de 2006, ainda meio no calor da hora. O segundo artigo foi escrito em Canudos, onde estive entre os dois turnos da eleição presidencial, em outubro de 2006.

Sobre o blog

Ainda nesta fase de organização do ministério e de definição do papel da oposição, vou continuar escrevendo. Aproveito para agradecer as gentis palavras dos(das) comentaristas. Amanhã vou tratar do PMDB.

Jornal da Cultura

Participo às terças no "Jornal da Cultura" debatendo os temas do dia com o colega Vladimir Safatle.

44% estão na oposição

Publiquei hoje na Folha de S. Paulo:

A OPOSIÇÃO acreditou que criticar o governo levaria ao isolamento político. O resultado das urnas sinalizou o contrário: 44% do eleitorado disse não a Dilma. Ela era candidata desde 2008. Ninguém falou em prévias, nenhum líder fez muxoxo. Lula uniu não só o partido, como toda a base.

Articulou, ainda em 2009, as alianças regionais e centrou fogo para garantir um Congresso com ampla maioria, para que Dilma pudesse governar tranquilamente.

Afinal, nem de longe ela tem sua capacidade de articulação política.

E a oposição? Demorou para definir seu candidato. Quando finalmente chegou ao nome de Serra, o partido estava dividido, vítima da fogueira das vaidades. Ao buscar as alianças regionais, encontrou o terreno já ocupado. Não tinha aliados de peso no Norte e Centro-Oeste, e principalmente no Nordeste.

Neste cenário, ter chegado ao segundo turno foi uma vitória. No último mês deu mostras de combatividade, de disposição de enfrentar um governo que usou e abusou como nunca da máquina estatal. Como, agora, fazer oposição?

Não cabe aos governadores serem os principais atores desta luta -a União pode retaliar e isso, no Brasil, é considerado "normal".

É principalmente no Congresso Nacional que a oposição deve travar o debate. Lá estará, inicialmente, enfraquecida. Perdeu na última eleição, especialmente na Câmara, quadros importantes. Mesmo assim, pode organizar um "gabinete fantasma" e municiar seus parlamentares e militantes com informações e argumentos. Usar as Câmaras Municipais e as Assembleias estaduais como espaços para atacar o governo federal. E abastecer a imprensa -como sempre o PT fez- com denúncias e críticas.

Espaço para a oposição existe. O primeiro passo é assumir o seu papel. Deve elaborar um projeto alternativo para o Brasil. Sair da esfera dos ataques pessoais e politizar o debate, acabar com o personalismo e o regionalismo tacanho, formar quadros e mobilizar suas bases.

É uma tarefa imediata, não para ser realizada às vésperas da eleição presidencial de 2014.

O lulismo tem pilares de barro. É frágil. Não tem ideologia. Não passa de uma aliança conservadora das velhas oligarquias, de ocupantes de milhares de cargos de confiança, da máfia sindical e do grande capital parasitário. Como disse Monteiro Lobato, preso pelo Estado Novo e agora perseguido pelo lulismo: "Os nossos estadistas nos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro -com o calcanhar, com o cotovelo, com certo penduricalhos, raramente com os miolos".

Caminhos para a oposição

O resultado não foi ruim para a oposição. A vitória em vários estados foi muito importante (São Paulo, Minas, Paraná, Pará, Goias, etc). O problema maior é a pequena reporesentação no Congresso Nacional, especialmente na Câmara onde faltam deputados com perfil oposicionista (com raríssimas exceções).

A aliança conservadora que sustentou a candidatura Dilma (oligarcas - velhos e novos -, máfia sindical, oportunistas de todos os matizes, etc) deve começar agora a briga de foice pelos cargos ministeriais e das empresas estatais. teremos, certamente, muita emoção.

Como informei na primeira postagem, o papel deste blog era de acompanhar o processo eleitoral. Desta forma, vou escrever mais alguns textos no decorrer desta semana e depois deixar o blog mais uma semana no ar. É muito difícil atualizar diariamente o blog tendo em vista os inúmeros compromissos que tenho.

Para fazer uma boa análise é necessário estudar os dados do TSE. De pouco em pouco - ainda nesta semana - vou comento o que acho de mais relevante.