Início de verdade

Sem o Brasil na Copa e sem as marras da absurda legislação eleitoral, a campanha realmente começou. Serra já partiu para o ataque chamando Dilma para a briga. Claro que ainda de leve. Dilma vai evitar qualquer enfrentamento direto. Não vai se desgastar. E tem o PT e seus aliados para defendê-la e atacar Serra. E mais: tem Lula. Este vai ser um ponto que ainda vai gerar muita discussão. Com a mais absoluta certeza é possível afirmar que Lula vai querer participar ativamente da campanha.

Observando

Com o início efetivo da campanha (apesar dos problemas criados pelo TSE, em parte devido a péssima produção das leis eleitorais pelo Legislativo) é interessante observar:

1. Os anúncios das empresas estatais. Até o momento, fazem abertamente propaganda eleitoral;
2. A ação dos ministros, especialmente das pastas políticas;
3. A proliferação de pesquisas e um bate-boca quando a candidata Dilma estiver em segundo. Pesquisa boa é aquela que registra a sua vitória, preferencialmente por larga margem;
4. As decisões do TSE. O tribunal pode virar um personagem ativo nas eleições;
5. Claro que o grande personagem não estará na cédula, assim como o grande personagem da Argentina não estava dentro "das quatro linhas". Veremos como ele vai agir. Que haverá sérios problemas legais, é pule de dez.

Caminhos da oposição (2)

Um dos desafios é de ampliar o leque das propostas. Claro que falar de saúde é importante para Serra, mas só isso não basta. Falar só da biografia, também. Buscar questões que são relevantes para o dia-a-dia da maioria dos eleitores é um tremendo desafio. Muitas vezes o eleitor vota por mera simpatia (ou antipatia em relação ao adversário, especialmente no segundo turno). Quando o candidato cai no "gosto" do eleitor, acaba vencendo sem nem saber porque. Evidentemente que tem muitos "explicadores" da vitória. Os consultores e marqueteiros sempre "sabem" com antecedência (lembra um pouco alguns economistas estrangeiros que estão sempre prevendo uma crise; chega uma hora que a crise acontece e eles possam de "futurólogos").

A imagem de Serra é boa e consegue rivalizar com Dilma entre o eleitorado de Lula (mais do que o do PT). Em grande parte isto se deve à pássagem pelo ministério da Saúde. Daí que Lula fez de tudo, até março deste ano, para embaralhar o jogo da oposição. Ele já tinha candidata e queria designar o candidato da oposição. Queria escolher o melhor adversário para vencer. E este melhor adversário, evidentemente, não era o Serra.

Entre os desafios de Serra é o de encontrar o tom para a campanha e alguns itens programáticos para repetir até a exaustão. O eleitorad0 (a maioria, claro) não tem a mínima idéia do que é reforma tributária, câmbio, taxa de juros, etc, etc. Se for tocar nestas questões, tem de ser de leve, residualmente, e de forma muito didática. Não pode perder o tempo da propaganda pensando estar dando aula de Introdução à Economia. Ser candidato da oposição é muito mais difícil do que ser candidato do governo.

Caminhos da oposição

Dilma, se perder, analistas dirão que fez mais do que se esperava (lembra um pouco as "análises" de futebol). Se ganhar, logo vão começar a especular se vai trair o criador. Marina pode ter 8, 9 ou 10% dos votos, e logo dirão que foi uma vitoriosa. O único que corre risco na eleição (dos candidatos, claro) é Serra. Tem de vencer. E até uma vitória por pequena margem vai ser criticada. E mais difícil: tem de transformar seus aliados em apoiadores. parece redundância mas não é. Tem aliados mas não (ao menos até agora) apoiadores efetivos. Alguns deles estão olhando para o campo adversário para ver se é melhor fazer corpo mole e depois aderir (após, óbvio, a vitória de Dilma).

Serra tem o grande desafio de enfrentar um governo muito bem avaliado e com uma economia estabilizada e com bom crescimento (comparativamente aos últimos 20 anos). Não pode dizer que tudo está ruim, sob o risco não só de perder a eleição, mas de ser considerado maluco. O seu primeiro desafio será criticar a política econômica e mostrar (de forma acessível, sem economês) que o país pode crescer muito mais. E como este crescimento servirá para (rapidamente) enfrentar os graves problemas sociais. Não é uma tarefa fácil.

Datafolha

O Datafolha de hoje deu Serra com 39% e Dilma com 38%. Estão empatados. Aquela conversa de que a Dilma ganharia no primeiro turno, como eu já tinha escrito, não passa de bobagem. Ninguém vai ganhar no primeiro turno. Teremos um segundo turno disputadíssimo e um vencedor por uma margem muito pequena.

A pesquisa pode representar uma virada de página, depois de dias e dias de enorme confusão entre os oposicionistas. Mas também não é para ser comemorada como uma grande vitória. Mostra que o candidato Serra é o único - no campo oposicionista - que pode enfrentar Lula. Pois, sabemos (e o próprio presidente disse), Dilma é o codinome de Lula na eleição de 2010.

Agora, a oposição tem de se convencer que a campanha começou, ainda que timidamente, e que não pode ser vítima de fogo amigo a cada semana. Dilma continuará seu périplo, evitando entrevistas e nem querendo saber de debates. Deve, nestes dias, colar a sua imagem a de Lula. vai tentar associar uma eventual vitória da seleção a Lula e a ela. Vamos ver várias fotos da ex-ministra "vibrando" com a seleção e até com a camisa "canarinho".

Analisando as regiões, a pesquisa reforça a interpretação de um país eleitoralmente partido. Serra tem 50% dos votos do Sul e 43% do Sudeste. Para ganhar tem de ampliar a diferença especialmente no Sudeste. Se passar dos 50% gahará a eleição independentemente da derrota no Nordeste e Norte. Concentrar a campanha no "triângulo de ferro" da política brasileira pode ser o segredo da vitória.

Fazendo política

Para, momentaneamente, encerrar a questão das enchentes, vale mais uma consideração. É rotineiro o governo federal prometer a liberação das verbas. Falam em milhões de reais com enorme facilidade. Passa uma, duas, três semanas e o dinheiro não chega. Quando vem, é alguma migalha, desprezível frente aos milhões prometidos, quando da tragédia.

O que deve fazer a oposição? O que fazia o PT, quando era oposição. Espernear, protestar, mobilizar a população, convocar a imprensa. Qual deputado estadual foi protestar na assembléia? Qual usou a sua influência na região onde foi eleito para denunciar a inércia governamental? Qual deputado federal foi sistematicamente à tribuna da Cãmara para cobrar providências do governo? Que senador cobrou providências do governo? Quem procurou a imprensa para denunciar o descaso governamental? A oposição assiste a política da janela. Raramente dá algum sinal de vida. Quer ganhar a eleição por WO.

Voltado ao problema das enchentes

A oposição continua silenciosa. Mas a tragédia continua. Não fala um líder partidário, alguém da direção da campanha, um deputado federal, senador, ninguém. É possível compreender que o candidato não fale, pois, certamente, seria acusado de querer "explorar a tragédia". Porém é inexplicável que alguém da oposição não coloque o dedo na ferida, fale das péssimas gestões de Ciro e Geddel, da fortuna destinada á transposição do rio São Francisco, da falta de planejamento e por aí vai. E pior ainda (e só pensando eleitoralmente): é a região que, nas pesquisas, Dilma está mais confortável.